Uma Cidade não é uma Árvore

N. do T.: O presente artigo é um clássico que merecia uma tradução mais completa para o português. O interessante deste texto de Cristopher Alexander é sua abordagem utilizando a matemática que se aproxima da conceituação de ordem espontânea de Hayek nas cidades que não sofrem de um planejamento centralizado.

Uma Cidade não é uma Árvore

Em 02 de Abril de 2013, por Christopher Alexander

 A árvore do meu título não é uma árvore com folhas verdes, é o nome de uma estrutura abstrata. Eu devo contrastá-la com uma outra, uma estrutura ainda mais abstrata chamada semilattice. De modo a relacionar essas estruturas abstratas à natureza da cidade, devo primeiramente fazer uma simples distinção.

 Cidades Naturais e Cidades Artificiais:

Quero chamar as cidades que surgiram mais ou menos espontaneamente durante vários anos de cidades naturais. E devo chamar as outras cidades, ou partes de cidades, que foram deliberadamente criadas por designers e planejadores de cidades artificiais. Siena, Liverpool, Kyoto, Manhattan são exemplos de cidades naturais. Levitown, Chandigarh, Brasília e as novas cidades britânicas são exemplos de cidades artificiais.

É cada vez mais reconhecido atualmente que existe algum ingrediente essencial faltando às cidades artificiais. Quando comparadas com as cidades antigas que receberam a pátina da vida, nossas tentativas modernas em criar artificialmente cidades são, pelo ponto de vista humanístico, totalmente sem sucesso.

Os próprios arquitetos admitem livremente que preferem morar em edifícios antigos a novos. O público em geral, não amante de arte, apesar de ser grato aos arquitetos pelo que fazem, considera o conjunto de cidades e edifícios modernos em todo lugar como inevitável, apesar das tristes parcelas de um fato maior que afirma que o mundo está indo pelo cano.

É muito fácil dizer que essas opiniões representam apenas o desejo que as pessoas têm de não se esquecerem do passado e de sua determinação em serem tradicionais. Por mim mesmo, eu confio nesse conservadorismo. As pessoas usualmente desejam se mudar com o tempo. Sua crescente relutância em aceitar a cidade moderna evidentemente expressa um sentimento de falta por algo real, algo que no momento escapa de nosso domínio.

A idéia de que podemos estar tornando o mundo um lugar povoado de pequenas caixas de vidro e de concreto também tem alarmado muitos arquitetos. Para combater o futuro “caixa de vidro”, muitos projetos e concepções têm sido levados adiante, todos com a esperança de recriar numa forma moderna as várias características da cidade natural que parece dar vida a ela. Porém, até o momento, esses projetos têm apenas refeito o antigo , eles não foram capazes de criar “o novo”.

Outrage (Ultraje), a campanha da Architectural Review contra o modo no qual novas construções e os postes de telégrafos estão estragando as cidades inglesas, baseou suas soluções, essencialmente, na idéia de que a seqüência espacial de edificações e de espaços abertos deve ser controlada se a escala tiver que ser preservada – uma idéia que vem do livro de Camilo Sitte sobre quadras e piazzas antigas.

Um outro tipo de solução proposta, em protesto contra a monotonia de Levittown (imagens), tenta recapturar a riqueza da forma encontrada nas casas de uma velha cidade antiga. A vila de Llewelyn Davies em Rushbroke (imagens), na Inglaterra, é um exemplo – cada cota é diferente da dos vizinhos, os telhados são construídos para dentro ou para fora, em ângulos pitorescos: as formas são interessantes e bonitas.

Uma terceira solução sugerida é criar grande densidade na cidade. Isso parece ser a vontade de criar uma metrópole inteira como uma grande estação central, com muitas camadas e túneis por todos os lados e pessoas suficientes perambulando por todos os cantos, talvez isso trouxesse algo de humano novamente. A artificialidade dos esquemas  urbanísticos de Victor Gruen e dos esquemas de LCC para Hook New Town trai esse pensamento em funcionamento.

Outra brilhante crítica da morte que está em todos os cantos vem de Jane Jacobs. Suas críticas são excelentes. Porém, quando você lê suas propostas concretas pelo que deveríamos fazer, você tem a idéia de que ela quer que a grande cidade moderna seja um tipo de mistura de Greenwich Village com uma cidadela montanhesca italiana, cheia de pequenas quadras e pessoas sentadas nas ruas.

O problema que esses designers urbanos tentam encarar é real. É vital que descubramos a propriedade que deu vida às cidades antigas e que a utilizemos em nossas cidades artificiais. Entretanto, não podemos fazer isso meramente refazendo as cidadezinhas inglesas, as piazzas italianas e as grandes estações centrais. Muitos designers urbanos atualmente parecem estar ansiosos pelas características plásticas e físicas do passado, ao invés de procurarem pelos princípios abstratos de ordenamento que surgiram nas cidades do passado e que as nossas cidades modernas não conseguem encontrar. Esses designers falham em trazer vida nova sob a aparência da cidade, simplesmente porque eles imitam a aparência da cidade antiga, sua substância concreta: eles falham em desenterrar a sua natureza inerente.

O que é a natureza inerente, o princípio ordenador, que distingue a cidade artificial da cidade natural? Você terá adivinhado do primeiro parágrafo o que acredito ser esse princípio. Acredito que uma cidade natural possui uma organização de semilattice; mas quando organizamos uma cidade artificialmente, organizamo-la como um esquema de árvore.

Árvores e Semilattices:

Tanto a árvore quanto os semilattices são formas de pensar sobre como uma grande coleção de pequenos sistemas interage para produzir um sistema ainda maior e mais complexo. Generalizadamente, eles são nomes dados a estruturas de conjuntos.

De forma a definir tais estruturas, deixe-me primeiramente definir o conceito de um conjunto. Um conjunto é uma coleção de elementos que por alguma razão pensamos como pertencentes uns aos outros. Já que, como designers urbanos, estamos preocupados com os elementos vívidos físicos das cidades e suas espinhas dorsais, devemos naturalmente nos restringir a considerar conjuntos que são coleções de elementos materiais como pessoas, lâminas de vidro, carros, moléculas, casas, jardins, tubulação hidráulica, as moléculas de água dentro dela etc.

Quando os elementos de um conjunto pertencem a si mesmos porque eles cooperam ou trabalham conjuntamente de alguma forma, chamamos esse conjunto de sistema.

Por exemplo, em Berkeley, na esquina das ruas Hearst e Euclides, há uma farmácia e fora dessa farmácia há um semáforo. Na entrada da farmácia há uma estante com revistas onde os jornais do dia estão colocados. Quando o semáforo está aberto, as pessoas que esperam para cruzar a rua estão ociosas por causa dele e já que não têm nada a fazer, olham os jornais colocados na estante. Algumas delas até mesmo lêem as manchetes, outras até mesmo compram um jornal.

Esse efeito faz da estante e dos semáforos interdependentes; a estante, os jornais ali colocados, o dinheiro indo dos bolsos dos transeuntes ao caixa, as pessoas que ali esperam pela mudança do sinal e a calçada na qual as pessoas esperam, tudo isso forma um sistema – todos trabalham de alguma forma conjuntamente.

Do ponto de vista do designer, a parte fisicamente imutável desse sistema é de interesse especial. A estante, o semáforo e a calçada entre os dois, relacionados como estão, formam a parte fixa do sistema. É no receptáculo imutável no qual as partes mutáveis do sistema – as pessoas, os jornais, o dinheiro e os impulsos elétricos – podem trabalhar juntamente. Eu defino essa parte fixa como uma unidade da cidade, ela deriva a sua coerência como uma unidade tanto das forças que seguram seus próprios elementos juntos como da coerência dinâmica de um sistema de vida ainda maior que inclui isso como uma parte não variável.

Outros exemplos de sistemas na cidade são: o conjunto de partículas que fazem uma edificação; o conjunto de moléculas que forma o corpo humano; o que forma os carros em uma estrada, mais as pessoas dentro deles; dois amigos no telefone, mais os telefones que eles seguram, mais a linha telefônica que os conecta; Telegraph Hill com todas as suas construções, serviços e habitantes; a corrente das drogarias Rexall; os elementos físicos de São Francisco que estão sob a autoridade da prefeitura; tudo dentro das fronteiras de São Francisco, mais todas as pessoas que visitam a cidade regularmente e contribuem para o seu desenvolvimento; mais a maioria das fontes de bem estar econômico que suprem a cidade com riqueza; o cão da porta vizinha; mais a minha lata de lixo, mais o lixo dessa minha lixeira; o capítulo de São Francisco na John Birch Society.

Cada um deles é um conjunto de elementos coerente e cooperativo por algum tipo de força inerente de ligação. Cada um, assim como o sistema semáforo-estante, possui uma parte fixa fisicamente que pensamos como uma unidade da cidade.

De muitos conjuntos concretos fixos da cidade que são os receptáculos para os seus sistemas e podem, portanto, ser pensados como unidades físicas significativas, normalmente separamos algumas para uma consideração especial. De fato, eu afirmo que qualquer que seja a imagem da cidade que alguém tenha por definição precisamente pelos subconjuntos vê como unidades.

Agora, uma coleção de subconjuntos que interagem como uma pintura não é meramente uma coleção amorfa. Automaticamente, meramente porque as relações são estabelecidas entre os subconjuntos tão logo eles sejam escolhidos, a coleção possui uma estrutura definida.

Para entender essa estrutura, vamos pensar abstratamente por um momento, utilizando números como símbolos. Ao invés de falarmos de conjuntos reais de milhões de partículas que ocorrem numa cidade, vamos considerar uma estrutura mais simples feita de meia dúzia de elementos. Rotule esses elementos de 1, 2, 3, 4, 5 e 6. Não incluindo o conjunto completo [1, 2, 3, 4, 5, 6], o conjunto vazio [-] e os conjuntos de elementos unitários [1], [2], [3], [4], [5] e [6], há 56 subconjuntos diferentes que podemos pegar de 6 elementos.

Suponha que peguemos ao acaso alguns desses 56 conjuntos (assim como se pegarmos certos conjuntos e os chamarmos de unidades quando formamos uma imagem da cidade). Digamos, por exemplo, que pegamos os seguintes subconjuntos: [123], [34], [45], [234], [345], [12345], [3456].

Quais são as relações possíveis entre esses conjuntos? Alguns conjuntos serão inteiramente partes de conjuntos ainda maiores, como [34] é parte de [345] e de [3456]. Alguns dos conjuntos irão se sobrepor, como [123] e [234]. Alguns dos conjuntos não terão ligação, não contêm nenhum elemento em comum como [123] e [45].

Podemos ver essas relações dispostas em duas formas na Figura 01. No diagrama a, cada conjunto escolhido para ser uma unidade possui uma linha desenhada ao seu redor. No diagrama b, os conjuntos escolhidos de forma a aumentarem sua magnitude, assim qualquer um dos conjuntos contém algum outro (como [345] contém [34]), há um caminho vertical que liga um ao outro. De modo a esclarecer e não poluir o visual, normalmente desenham-se linhas apenas entre conjuntos que não tenham outras linhas e conjuntos a sua frente [34] e [345] e a linha entre [345] e [3456], para isso, faz-se necessário apenas desenhar uma linha entre [34] e [3456].

Figura 01 – Diagramas a e b (obs.: redesenhados por Nikos Salingaros)

semilattice-vs-tree-600x400

Como vemos entre essas duas representações, a escolha de subconjuntos por si só mantém os subconjuntos como um todo como uma estrutura maior. Essa é a estrutura com a qual estamos preocupados aqui. Quando a estrutura encontra algumas condições, ela é chamada semilattice. Quando ela encontra outras condições restritivas, ela é chamada de árvore.

O axioma semilattice é o seguinte: “uma coleção de conjuntos forma um semilattice se, e apenas se, dois conjuntos sobrepostos pertencem à coleção, então o conjunto de elementos comuns a ambos também pertence à coleção.”

A estrutura ilustrada nos diagramas a e b é um semilattice. Ele satisfaz o axioma desde que, para isso, [234] e [345] pertençam ambos à coleção e suas partes comuns [34] também pertençam a ele (enquanto a cidade for considerada, esse axioma afirma meramente que sempre que duas unidades se sobreporem, a área de sobreposição é ela mesma uma entidade reconhecida e, desse modo, também uma unidade. No caso do exemplo da farmácia, uma unidade consiste de estantes, calçada e semáforos. Uma outra unidade consiste da farmácia, com sua entrada e sua estante de jornais. As duas unidades se sobrepõem na estante dos jornais. Claramente essa área de sobreposição é ela mesma uma unidade reconhecível e, então, satisfaz o axioma acima que descreve o que satisfaz as características de um semilattice).

A estrutura ilustrada nos diagramas c e d é uma árvore (figura 01). Desde que esse axioma exclua a possibilidade de sobreposição nos conjuntos, não há forma na qual o axioma semilattice possa ser violado, pois cada esquema de árvore é um semilattice trivialmente simples.

Entretanto, neste artigo, não estamos realmente preocupados com o fato de árvores serem tipos de semilattices, mas com a diferença entre os mais simples e os semilattices mais gerais que não são árvores por possuírem sobreposições. Estamos preocupados com a diferença entre estruturas nas quais nenhuma sobreposição ocorre e aquelas estruturas em que ocorrem.

O axioma da árvore afirma: ”uma coleção de conjuntos forma uma árvore se, e somente se, para cada dois conjuntos que pertencem à coleção cada um está totalmente contido no outro, ou eles estão totalmente desconectados”.

Não é meramente a sobreposição que faz a distinção entre os dois ser importante. Ainda mais importante é o fato de que os semilattices são estruturas súbitas e potencialmente muito mais complexos que as árvores. Podemos ver quão mais complexos os semilattices podem ser que árvores no seguinte fato: uma árvores baseada em 20 elementos pode conter no máximo 19 subconjuntos de 20, enquanto um semilattice baseado nos mesmos 20 elementos pode conter mais que 1.000.000 de diferentes subconjuntos.

Essa enorme variação superior é um índice da grande complexidade de que um semilattice pode ter comparado com estruturas simples como a das árvores. É a falta dessa complexidade estrutural, característica das árvores, que está arruinando nossos conceitos de cidade.

Cidades Artificiais que são Árvores

Para demonstrar, vejamos alguns conceitos de cidades modernas, cada qual devo demonstrar como sendo essencialmente um esquema em árvore.

A Figura 02 abaixo representa Columbia, Maryland – Community Research and Development Inc. As casas formam vizinhanças que, em conjuntos de cinco, formam vilas. As ligações de transporte ligam essas vilas em uma nova cidade. A organização é um esquema em árvore.

02-columbia plan com gráfico

A Figura 03  abaixo representa Greenbelt, também em Maryland, projetada por Clarence Stein. Essa cidade jardim foi separada em super-quadras. Cada super-quadra possui escolas, parques e um número representativo de residências construídas em volta de estacionamentos. Sua organização é um esquema em árvore.

03-Greenbeltplan com gráfico

O plano da Grande Londres de 1943, apresentado na Figura 04 abaixo, planejado por Abercrombie e Forshaw, mostra a estrutura concebida para a cidade. Ela é formada por um grande número de comunidades, cada uma agudamente separada de todas as outras comunidades adjacentes. Abercrombie escreveu que o “propósito é enfatizar a identidade de comunidades existentes, aumentar o seu grau de segregação e, onde necessário, reorganizá-las como entidades separadas e definitivas.” E de novo, “as próprias comunidades consistem de uma série de subunidades, geralmente com suas próprias lojas e escolas, correspondendo às unidades de vizinhança”. A cidade é concebida como um esquema em árvore com dois níveis principais. As comunidades são as maiores unidades da estrutura; as menores subunidades são as vizinhanças. Não há unidades sobrepostas. A estrutura é uma árvore.

04-plan london abercrombie com gráfico

O Plano de Tókio, proposto por Kenzo Tange, conforme a Figura 05, é um belo exemplo. O plano consiste de uma série de loops alongados sobre a baía de Tókio. Há quatro loops maiores, cada um dos quais contendo três loops médios. No segundo maior loop, um loop médio é a estação de trem e o outro é o porto. Do contrário, cada loop médio contém três loops menores que são vizinhanças residenciais, exceto no terceiro maior loop onde um contém os escritórios do governo e o outro os escritórios de empresas.

05-kenzo tange plan for tokio com gráfico

A Figura 06 representa a Cidade de Mesa, de Paolo Soleri. As formas orgânicas da Mesa City nos leva, em uma visão não muito clara, a acreditar que ela é uma estrutura mais rica que nossos exemplos mais rígidos. Porém, quando olhamos para ela em detalhes percebemos precisamente o mesmo princípio de organização. Pegue, particularmente, o centro da Universidade. Aqui encontramos o centro da cidade dividido em universidade e um quarteirão residencial, que é então dividido em um numero de vilas (na verdade prédios de apartamentos) para 4.000 habitantes e cada um, novamente, dividido e rodeado por unidades ainda menores de habitação.

06-mesa city plan com gráfico

Chandigarh, de Le Corbusier, projetada em 1951, é apresentada na Figura 07. Toda a cidade é servida por um centro comercial no meio, ligado ao centro administrativo no topo. Dois prolongamentos alongados subsidiários são comerciais e seguem ao longo das rodovias arteriais principais – essas vias seguem de Norte a Sul. Subsidiariamente a elas estão centros comunitários e comerciais mais longe, um para cada 20 setores da cidade.

07-chandigarh-plan com gráfico

A seguinte Figura 08 representa Brasília, desenhada por Lúcio Costa. Toda a forma da cidade se ampara em um eixo central e cada uma das metades é servida uma via principal. Ela é, subsidiariamente, acompanhada por artérias paralelas. Finalmente, todas são alimentadas por ruas rodeadas que delimitam as grandes quadras. A estrutura é claramente em árvore.

08-plano piloto de brasilia com gráfico

Communitas, de Percival e de Paul Goodman, como apresentada na Figura 09 abaixo, é explicitamente organizada como uma árvore: primeiramente ela é dividida em quatro círculos maiores, o mais central sendo um centro comercial, o próximo uma universidade, o terceiro residencial e médico e o quarto com campos abertos. Cada um deles é então subdividido: o centro comercial é representado como um grande arranha-céu cilíndrico, contendo 5 camadas: aeroporto, administração, indústria leve, shoppings e entretenimento; e na base, linhas férreas, ônibus e serviços gerais. A universidade é dividida em oito setores formados por museus de história natural, zoológicos e aquário, planetário, laboratórios de ciência, artes plásticas, música e teatro. O terceiro anel concêntrico é dividido em residenciais para 4.000 pessoas cada, sem consistir em edificações unifamiliares, mas de blocos de apartamentos, cada qual contendo as unidades de habitação. Finalmente, o espaço aberto é dividido em três segmentos: preservação florestal, agricultura e recantos de férias. Toda essa organização espacial é uma árvore.

O mais belo exemplo de todos eu deixei para o final, porque ele simboliza perfeitamente todo o problema que temos discutido. Ele aparece no livro The Nature of Cities, de Hilberseimer e pode ser visualizado nas Figuras 10 e 11 abaixo. Ele descreve o fato de que certas cidades romanas tiveram a sua origem em campos militares e então mostra a imagem de um campo militar atual como uma forma arquétipa para a cidade. Não é possível ter uma estrutura que seja uma árvore esclarecedora. O símbolo é apto para, é claro!, a organização do exército e foi pensado precisamente de forma a criar disciplina e rigidez. Quando uma cidade é transformada em árvore, é isso o que acontece para o espaço urbano e sua população. A Figura 11 mostra o próprio esquema de Hilberseimer para uma área comercial de uma cidade estabelecida no campo militar arquetípico.

As unidades das quais uma cidade artificial é feita são sempre organizadas na forma de árvore. Dessa forma, podemos perceber claramente o que ela realmente significa e poderemos ver melhor as suas implicações. Vamos definir a árvore mais uma vez:

Sempre que tivermos uma estrutura em árvore, isso significa que dentro dessa estrutura nenhuma peça de nenhuma unidade está de alguma forma conectada às outras unidades, exceto por meio daquela unidade global.

A globalidade dessa restrição é difícil de ser compreendida. Ela é estrita como se os membros de uma família não tivessem a liberdade de fazer amigos fora da família, exceto se a família como um todo tivesse essa amizade.

Na simplicidade da estrutura, a árvore é comparada aos desejos compulsivos por clareza e ordem que insistem em alocar os candelabros perfeitamente simétricos e alinhados sobre a mesa de jantar. O semilattice, em comparação, é a estrutura do tecido complexo; ele é a estrutura das coisas vivas, de grandes pinturas e sinfonias.

Deve ser enfatizado, a fim de que a mente ordeira não caia em horror por qualquer coisa que não seja claramente articulada e categorizada na forma de árvore, que a idéia de sobreposição, ambigüidade, multiplicidade dos aspectos e o semilattice não são menos ordenados que a árvore rígida, o contrário, eles são muito mais. Eles representam uma visão mais fina, forte, súbita e complexa da estrutura.

Vejamos agora as formas em que o natural, quando não delimitado e restringido por concepções artificiais, mostra-se um semilattice.

Uma cidade viva é, e precisa ser, um semilattice.

Cada uma das estruturas apresentadas nas figuras acima está no esquema de árvore. Cada unidade em cada árvore que descrevi, além do mais, é o resíduo fixo e imutável de alguns sistemas da vida urbana (assim como a casa é o resíduo das interações entre os membros de uma família, de suas emoções e seus pertences; e as estradas são o resíduo de movimentos e trocas comerciais). Entretanto, em cada cidade há milhares, até mesmo milhões, de vezes mais sistemas em funcionamento cujos resíduos físicos não aparecem como unidades nesses esquemas em árvore.

Nos piores casos das estruturas em árvore, as unidades que realmente aparecem falham em responder a qualquer realidade de vida; e o sistema verdadeiro, cuja existência realmente torna a cidade viva, tem sido fornecido por nenhum receptáculo físico.

Nem o Plano Columbia, nem o Plano Stein, por exemplo, correspondem às realidades sociais. O layout físico dos planos, e a forma como funcionam, sugere uma hierarquia de grupos sociais cada vez mais fechados, variando da cidade como um todo até a unidade familiar, cada um formado por nódulos societários de diferentes forças. Ainda assim, isso é totalmente irreal.

Em uma sociedade tradicional, se perguntarmos a um homem sobre seus melhores amigos e então os melhores amigos de cada um deles, eles todos irão nomear uns aos outros de modo a constituírem um grupo fechado. Uma vila é formada de grupos separados, porém fechados desse tipo.

Contudo, a atual estrutura social é diferente, se pedirmos para que um homem nomeie seus amigos e então perguntarmos a cada um deles sobre os seus, eles irão nomear pessoas diferentes, muito provavelmente desconhecidos do primeiro; essas pessoas novamente nomeariam outras diferentes e assim por diante. Não há virtualmente nenhum grupo fechado de pessoas na sociedade moderna. A realidade da estrutura social atual é cheia de sobreposições – os sistemas de amigos e conhecidos formam semilattices, não árvores (Figura 12)

FIGURA 12 – sociedade tradicional e sociedade aberta:

Na cidade natural, mesmo a casa ao longo de uma rua (não no caso de alguns becos) há um conhecimento mais acurado do fato de que seus amigos não vivem na vizinhança, mas longe de sua casa, e podem ser visitados apenas por ônibus ou automóveis. Nesse respeito, Manhattan possui mais sobreposições do que Greenbelt. E, embora seja possível argumentar que em Greenbelt, da mesma forma, amigos estão apenas a alguns minutos de distância de carro, deve-se perguntar: já que alguns grupos foram enfatizados pelas unidades físicas da estrutura física, por que eles são socialmente unidades irrelevantes?

Um dos principais aspectos da estrutura social da cidade em que a árvore não pode nunca espelhar propriamente é ilustrado pelo plano de renovação de Ruth Glass para Middlesbrough, na Inglaterra: uma cidade de 200.000 habitantes que ela recomenda que seja repartida em 29 bairros separados. Após retalhar seus 29 bairros determinados pelas descontinuidades mais agudas das tipologias de edifícios, de renda e de tipos de trabalho, ela se pergunta a seguinte questão: “se examinarmos alguns dos sistemas sociais que realmente existem para as pessoas em cada bairro, as unidades físicas definidas por esses vários sistemas sociais definem todos os mesmos bairros espacialmente?” Sua própria resposta a essa questão é: não, eles não definem.

Cada um dos sistemas que ela examina é um sistema nodal. Ele é formado por um tipo de nódulo central, mais as pessoas que utilizam esse centro. Especificamente, ela pega as escolas elementares, secundárias, clubes de jovens, clubes de adultos, agências dos correios, quitandas e mercearias. Cada um desses centros define os seus usuários de uma certa área espacial ou unidade espacial. Essa unidade espacial é um resíduo físico de um sistema social como um todo e é, portanto, uma unidade nos termos dessa discussão. As unidades correspondentes a diferentes tipos de centros para o bairro da Waterloo Road, como um exemplo, são mostradas na Figura 13.

FIGURA 13 –bairro de Waterloo Road:

A linha mais espessa é a fronteira do assim chamado bairro. Os círculos brancos identificam os clubes para jovens e os pequenos anéis rígidos identificam áreas onde os seus membros moram. Os pontos rígidos são os clubes de adultos e as casas de seus membros formam a unidade marcada pelas delimitações tracejadas. O quadrado branco é o posto dos correios e as linhas pontilhadas marcam a unidade que contém seus usuários. A escola secundária é marcada pelo ponto com um triangulo branco dentro dele.

Como é possível ser visto, as unidades diferentes não coincidem. E ainda, elas nem são desunidas. Elas se sobrepõem.

Não podemos ter uma imagem adequada do que é Middlesbrough, ou do que ele deveria ser, em termos de 29 pedaços grandes e convenientemente integrais chamados de bairros. Quando descrevemos a cidade em termos de bairros, implicitamente assumimos que os menores elementos dentro de cada uma dessas vizinhanças pertencem juntos tão justamente que eles interagem apenas com elementos em outras vizinhanças por meio das próprias vizinhanças às quais eles pertencem. A própria Ruth Glass demonstra claramente que esse não é o caso.

As Figuras 14 e 15 são duas representações do bairro de Waterloo. Para o bem do argumento, dividi o desenho em um número de pequenas áreas. A Figura 14 mostra como essas peças se ligam de fato e a Figura 15 mostra como o plano de renovação urbana pretende que eles se liguem

Não há nada na natureza dos vários centros que diga que suas áreas de influência deveriam ser as mesmas. Suas naturezas são diferentes. Portanto, as unidades que eles definem são diferentes. A cidade natural de Middlesbrough era uma estrutura em semilattice em suas unidades. Apenas na concepção da cidade artificial na forma de árvore estão destruídas as suas sobreposições naturais, próprias e necessárias.

FIGURA 14 – bairro de Waterloo: esquema original

FIGURA 15 – bairro de Waterloo: esquema do plano proposto

A mesma coisa acontece em uma escala menor. Peguemos a separação dos pedestres dos veículos, uma concepção em árvore proposta por Le Corbusier, Louis Kahn e muitos outros. A um nível bastante cru de pensamento, isso é obviamente uma grande idéia. É perigoso deixar veículos a 80km/h em contato com pequenas crianças de colo. Porém, nem sempre isso é uma boa idéia. Há momentos em que a ecologia de uma situação realmente demanda o oposto. Imagine-se vindo de uma loja da 5ª Avenida: você esteve comprando por toda a tarde; seus braços estão cheios de sacolas; você precisa de uma bebida refrescante; sua esposa está cansada. Obrigado Senhor pelos táxis!!!

O táxi urbano pode funcionar apenas porque pedestres e veículos não estão estritamente separados. O táxi precisa de um trânsito rápido de modo que possa cobrir grandes áreas para ter a certeza de encontrar passageiros. Os pedestres precisam ter as condições de sinalizarem de qualquer ponto de seu espaço específico e devem ser capazes de sair desse espaço para o qual precisam ir. O sistema que contém os táxis precisa sobrepor tanto o sistema de tráfego de veículos como o sistema de circulação de pedestres. Em Manhattan, pedestres e veículos dividem certas partes da cidade e a sobreposição necessária é garantida (Figura 16).

FIGURA 16 – esquema de Manhattan

Outro conceito favorito dos teóricos do CIAM e de outros é a separação da recreação de todo o restante. Isso se cristalizou em nossas cidades reais na forma dos parquinhos para crianças. Os parquinhos, asfaltados e cercados, são nada menos que um pictórico reconhecimento do fato de que “brincar” existe como um conceito isolado em nossas mentes. Isso nada tem a ver com a vida das brincadeiras por si mesmas. Poucas crianças com respeito próprio irão um dia brincar em um parquinho.

A verdadeira brincadeira, as brincadeiras que as crianças praticam, acontecem em diferentes lugares em cada dia. Um dia pode ser dentro de casa, outro dia no posto de gasolina do pai de um amiguinho, outro dia no rio, outro dia no prédio abandonado, outro dia na construção fechada para o final de semana. Cada uma dessas atividades, e os objetos que elas requerem, formam um sistema. Não é verdadeiro que esses sistemas existam isoladamente, cortados de todos os outros da cidade. Os diferentes sistemas se sobrepõem uns aos outros. As unidades, os lugares físicos reconhecidos como campos de brincadeiras, devem fazer o mesmo.

Em uma cidade natural é exatamente isso que acontece . As brincadeiras acontecem em milhares de lugares que preencham os interstícios da vida adulta. Enquanto elas brincam, as crianças se tornam cheias de experiências e lugares fantásticos. Como podem as crianças se tornarem “preenchidas” de experiências em um cercadinho?! Elas não podem.

(n. do t. o filme ítalo-francês Mon Oncle – Meu Tio –, de 1958, é uma bela ilustração dessa ruptura na cidade artificial em contraposição à vida pujante na cidade natural)

Um tipo similar de erro ocorre em esquemas de árvore como no Communitas de Goodman ou no Mesa City de Soleri, que separam a Universidade do restante da cidade. Novamente, isso foi realmente realizado de uma forma americana comum no campus universitário isolado.

Qual a razão para desenhar uma linha na cidade de forma que tudo o que estiver ali contido é a Universidade e todo o restante é não-universidade? É conceitualmente claro. Porém, isso corresponde às realidades da vida universitária? Certamente não é essa a estrutura que ocorre em cidades universitárias não-artificiais.

Peguemos a Universidade de Cambridge, por exemplo. Em certos pontos, Trinity Street é fisicamente quase indistinguível da Faculdade Trinity. Uma faixa de pedestres na rua é literalmente parte da faculdade. Os edifícios na rua, embora contenham lojas, cafés e bancos no piso térreo, contêm salas de aula nos pisos superiores. Em muitos casos, a estrutura de edificações na rua está ligada à estrutura dos edifícios antigos da faculdade, de modo que um não pode ser alterada sem alterar o outra.

Sempre haverá muitos sistemas de atividades onde a vida universitária e a vida urbana se sobrepõem: barzinhos, reuniões em cafés, cinemas, caminhadas de um lugar a outro. Em alguns casos, departamentos inteiros podem ser ativamente envolvidos na vida dos habitantes da cidade (o hospital universitário é um exemplo). Em Cambridge, uma cidade natural onde a Universidade e a cidade cresceram juntas gradualmente, as unidades físicas se sobrepõem porque elas são os resíduos físicos dos sistemas urbanos e dos sistemas da Universidade que se sobrepuseram (Figura 17).

FIGURA 17 – esquema de Cambridge

Vejamos com proximidade e em detalhes a hierarquia urbana realizada em Brasília, Chandigarh, no plano MARS para Londres e, mais recentemente, no Manhattan Lincoln Center, onde vários artistas performáticos servindo à população de Nova York foram reunidos para formar apenas um grupo.

Será que uma sala de concertos exige a proximidade com uma casa de óperas? Podem cada uma delas alimentar uma a outra? Alguém irá visitar ambas, gananciosamente, em uma mesma noite ou mesmo comprar tíquetes para um após a apresentação do outro? Em Viena, Londres, Paris, cada uma das companhias artísticas parece ter encontrado o seu próprio espaço e região na cidade, porque todas não estavam misturadas de forma randômica. Cada uma criou a sua própria e familiar porção da cidade. Na própria Manhattan, o Carnegie Hall e Motropolitan Opera House não foram construídos lado a lado. Cada um encontrou seu próprio lugar e agora criam a sua própria atmosfera. A influência de cada um sobrepõe as partes da cidade que se tornaram únicas para eles.

A única razão para todas aquelas funções terem sido levadas para o Lincoln Center é que o conceito de performance artística as liga umas às outras.

Porém, essa árvore e a idéia de uma única hierarquia dos espaços urbanos que são seus “pais” não iluminam as relações entre a arte e a vida urbana. Elas nasceram meramente da mania que cada pessoa de mente simplória possui para colocar as coisas com os mesmos nomes na mesma cesta.

A separação total do local de trabalho com a moradia, iniciada por Tony Garnier em sua cidade industrial, então incorporada na Atenas de 1929, é hoje encontrada em toda cidade artificial e aceita em qualquer lugar onde o zoneamento é reforçado. Isso é um princípio sólido? É fácil perceber como as péssimas condições no inicio do século XX exigiram dos planejadores ferramentas para afastar as fábricas insalubres para fora das áreas residenciais. Contudo, a separação faz perder uma variedade de sistemas que exigem, para a sua sustentabilidade, pequenas partes de ambos.

Jane Jacobs descreve o crescimento das indústrias de fundo de quintal do Brooklyn. Um homem que deseje iniciar um pequeno negócio precisa de espaço, o que provavelmente ele encontrará em seu quintal. Ele também necessita estabelecer relações com empresas maiores e com os seus clientes. Isso significa que o sistema de indústrias de fundo de quintal pertence tanto à zona residencial quanto à zona industrial. Ambas devem se sobrepor. No Broolyn isso acontece. Em cidades no esquema em árvore isso não é possível de acontecer.

Finalmente. Vamos examinar a subdivisão da cidade isolada em comunidades. Como pudemos ver no plano de Abercrombie para Londres (figura 04), ele é por si mesmo um esquema em árvore. A comunidade individual em uma cidade maior não tem nenhuma realidade como unidade de funcionamento. Em Londres, como em qualquer outra cidade grande, quase ninguém procura um trabalho que seja adequado por ser próximo de sua casa. Pessoas em um bairro trabalham na fábrica que provavelmente está em outro bairro ou região da cidade.

Há, portanto, dezenas de milhares de sistemas trabalhador-local de trabalho, cada um consistindo de indivíduos mais a empresa em que trabalham, os quais atravessam as fronteiras da árvore definida por Abercrombie. A existência dessas unidades, e de sua natureza sobreposta, indica que os sistemas de vida de Londres formam um semilattice. Apenas na mente do planejador urbano é que ela se transforma em um esquema de árvore.

O fato de que temos, até agora, falhado em dar qualquer expressão física, tem uma conseqüência vital. Como são as coisas, onde for que trabalhadores e seu local de trabalho pertençam a administrações municipais diversas, a comunidade que contém o local de trabalho coleta grandes quantias de impostos e tem relativamente menos no que gastar a receita pública. A comunidade onde mora o trabalhador, se for predominantemente residencial, coleta apenas um pouco em impostos e ainda tem um fardo adicional nos gastos com educação, saúde etc. Claramente, para resolver essa desigualdade, o sistema trabalhador-local de trabalho deve ser ancorado em unidades fisicamente reconhecidas da cidade que poderá ser taxada.

Deve ser argumentado que, mesmo que as comunidades individuais de uma grande cidade não tenham nenhum significado funcional na vida de seus habitantes, elas ainda assim são as unidades mais convenientes para a administração e deveriam ser deixadas em sua organização livre. Entretanto, na complexidade política da cidade moderna, mesmo isso é suspeito.

Edward Banfield, em seu livro Political Influence, dá detalhes dos padrões de influência e de controle que realmente têm levado às decisões em Chicago. Ele mostra que, embora as fronteiras de controle administrativo e executivo possuam uma estrutura formal semelhante à de árvore, essas correntes formais de influência e de autoridade são inteiramente sombreadas pelas linhas de controle ad hoc (para esta finalidade) que emergem naturalmente assim que cada novo problema urbano se apresenta. Essas linhas ad hoc dependem de quem se interessa sobre a questão, quem tem o que como objetivo, quem possui o que pode ser transacionado e com quem.

Essa segunda estrutura, que é informal, cujo funcionamento é inerente ao aparato da primeira, é o que realmente controla a ação pública. Ela varia de semana a semana, até mesmo de hora em hora, assim que um problema suplanta outro. A esfera de influência de qualquer pessoas está inteiramente sob controle de qualquer indivíduo superior, cada pessoa está sob diferentes influências sempre que os problemas mudam. Embora o esquema organizacional no gabinete do prefeito seja em árvore, o verdadeiro controle e exercício de autoridade é do tipo semilattice.

 A Origem do Pensamento em Estrutura de Árvore

A árvore – embora tão bela e nítida como uma ferramenta mental, embora ofereça um modo claro e simples de dividir entidades complexas em unidades – não descreve corretamente a verdadeira estrutura de cidades naturais espontaneamente emergentes e não descreve a estrutura das cidades que realmente precisamos.

Agora, por que é que tantos designers urbanos têm concebido cidades como árvores quando as suas estruturas naturais são em todos os casos semilattices? Eles têm feito isso deliberadamente, na crença de que uma estrutura em árvore irá servir as pessoas em uma cidade de uma maneira melhor? Ou eles têm feito isso porque eles não conseguem ajudar, pois estão de alguma forma presos por um hábito mental, talvez até mesmo presos por um modo de funcionamento da mente – porque eles não conseguem se encontrar e se adaptar a semilattices em qualquer forma mental conveniente, pois a mente possui uma predisposição irresistível para ver esquemas de árvores onde quer que olhe e não consegue escapar dessa concepção?

Devo tentar convencê-lo de que é pelo segundo caso que os esquemas em árvore estão sendo propostos e com eles que as cidades artificiais estão sendo construídas – isto é, porque designers urbanos, limitados como devem ser pela capacidade da mente em formar estruturas intuitivamente acessíveis, não podem alcançar a complexidade dos semilattices em um único ato mental.

Deixem-me iniciar com um exemplo. Suponha que te pergunte se você se lembra dos seguintes quatro objetos: uma laranja, uma melancia, uma bola de futebol e uma bola de tênis. Como você irá guardá-los em sua memória? Seja da forma que você fizer, você irá agrupá-los. Alguns de vocês agruparão as frutas juntas, a laranja e a melancia, e as duas bolas juntas, a de futebol e a de tênis.

Aqueles de vocês que tendem a agrupar em termos de formatos físicos podem agrupar diferentemente, colocando as duas formas menores juntas – a laranja e a bola de tênis e as maiores e com formato de ovo – a melancia e a fola de futebol. Alguns de vocês estarão cientes de ambos.

Façamos um diagrama desses agrupamentos (Figura 18).

FIGURA 18 – Semilattices:

Cada um desses grupos tirados de si mesmos é uma estrutura em árvore. Os dois juntos são semilattices. Agora, tentemos visualizar esses agrupamentos na visão da mente. Acredito que você irá achar que não consegue visualizar os quatro conjuntos simultaneamente – porque eles se sobrepõem. Você pode visualizar um par de conjuntos e então o outro e pode alternar entre os dois pares extremamente rápido, de modo que você pode se embaralhar no pensamento e visualizar a todos juntos. Porém, na verdade, você não pode conceber todos os quatro conjuntos de uma só vez em um único ato mental. Você não consegue trazer a estrutura de semilattice para uma forma visualizável para um ato mental. Em um único ato mental, você somente consegue visualizar um esquema em árvore.

Esse é o problema que encaramos como designers. Enquanto não estivermos, talvez, necessariamente ocupados com o problema da total visualização em um ato mental único, o princípio ainda será o mesmo. A árvore é mentalmente acessível e fácil de lidar. O semilattice é difícil de manter sob os olhos da mente e, portanto, difícil de tratar.

Hoje é sabido que agrupar e categorizar estão entre os processos psicológicos mais primitivos. A psicologia moderna trata o pensamento como um processo de encaixe de novas situações em espaços existentes e de compartilhamento na mente. Justamente por não ser possível colocar uma coisa física em mais de um espaço de compartilhamento da mesma vez, então, por analogia, os processos de pensamento nos previnem de colocar uma construção mental dentro de mais de uma categoria mental de uma só vez. O estudo da origem desses processos sugere que eles derivam essencialmente da necessidade do organismo em reduzir a complexidade de seu ambiente ao estabelecer barreiras entre os diferentes eventos que são encontrados.

É por essas razões – devido à primeira função da mente ser de reduzir a ambigüidade e a sobreposição em uma situação confusa e porque, para esse fim, é dotada de uma intolerância básica pela ambigüidade – que estruturas como a cidade, que realmente necessitam de conjuntos sobrepostos dentre si, são persistentemente concebidas como árvores quando projetadas ou planejadas.

A mesma rigidez acontece até mesmo com padrões físicos. Nos experimentos realizados por Huggins e por mim em Harvard, mostramos padrões de pessoas cujas unidades internas se sobrepunham e descobrimos que elas quase sempre inventam um modo de encontrar padrões na forma de árvores – mesmo quando as visualizações de semilattices dos padrões teriam ajudado a elas na performance das tarefas da experimentação que estava diante de si.

A prova mais surpreendente de que as pessoas tendem a conceber até mesmo padrões físicos como árvores é encontrada em alguns experimentos de Sir Frederick Bartlett. Ele mostrou a algumas pessoas um padrão por cerca de um quarto de segundo e então pediu a elas que desenhassem o que haviam visto. Muitas pessoas, impossibilitadas de compreenderem toda a complexidade dos padrões que tinham visto, simplificaram os padrões com cortes nas sobreposições. Na Figura 19, o original é mostrado na esquerda, com duas versões típicas de redesenho à direita. Nas versões, os círculos são separados do resto, a sobreposição entre os triângulos e círculos desaparece.

FIGURA 19 – Semilattices refeitos:

Esses experimentos sugerem fortemente que pessoas possuem uma tendência, quando encaradas por organizações complexas, a reorganizarem mentalmente os fatos em termos de unidades não sobrepostas. A complexidade dos semilattices é substituída por formas em árvore mais simples e mais facilmente compreendidas.

Você não está mais se perguntando agora como uma cidade se assemelha mais a um semilattice e não a uma estrutura de árvore. Devo confessar que ainda não posso mostrar planos e rascunhos. Não se trata meramente de demonstrar a sobreposição – a sobreposição deve ser, de fato, uma sobreposição. Isso é duplamente importante porque é tentador fazer planos nos quais a sobreposição acontece como planejado. Isso é essencialmente o que os planos de cidades de alta densidade e preenchidas de vida dos anos recentes tentam fazer (n. do t. as tentativas do smart growth e do new urbanism, por exemplo). Contudo, a sobreposição, sozinha, não apresenta estrutura. Ela também pode fazer emergir o caos. Um latão de lixo está cheio de sobreposições. Para ter estrutura, deve existir a sobreposição correta, a qual podemos observar em cidades históricas (n. do t. aquelas nascidas pela ordem espontânea do mercado). Assim que a relação entre as funções mudam, o mesmo deve ocorrer com todos os sistemas que precisam se sobrepor de modo a receberem essas relações. A recriação de velhos tipos de sobreposições será inapropriada e estruturas caóticas tomarão o lugar das apropriadas.

 O trabalho de tentar entender apenas o que se sobrepõe na cidade moderna requere, bem como a tentativa de colocar essa sobreposição requerida em termos físicos e plásticos, ainda está em andamento. Até o trabalho ser finalizado, não há nenhum ponto nos rascunhos apresentados sobre o pensamento vicioso fora essas estruturas.

É possível, talvez, tornar as conseqüências físicas das sobreposições mais compreensíveis por meio de uma imagem. A pintura ilustrada abaixo é um trabalho de Simon Nicholson (Figura 20). O fascinante dessa pintura resta sobre o fato de que, embora constituída de apenas alguns elementos triangulares simples, esses elementos unificam-se em muitas formas diferentes para definir as unidades maiores da pintura – em tal forma que, se fizermos um inventário completo das unidades perceptíveis na pintura, encontraremos que cada triângulo entra em 4 ou 5 tipos completamente diferentes de unidades, nenhuma contida nas demais, e ainda todas se sobrepondo naquele triângulo.

FIGURA 20 – pintura de Simon Nicholson

Assim, se enumerarmos os triângulos e pegarmos conjuntos de triângulos que aparecem como unidades visuais fortes, temos o semilattice da Figura 21.

semilatticepintura

– 3 e 5 formam uma unidade porque eles trabalham juntos como um retângulo; 2 e 4 porque formam um paralelogramo; 5 e 6 porque são ambos escuros e apontam para o mesmo lado; 6 e 7 porque um é o fantasma do outro espelhado; 4 e 7 porque são simétricos; 4 e 6 porque formam outro retângulo; 4 e 5 porque formam um tipo de Z; 2 e 3 porque formam um outro tipo de Z, mais fino; 1 e 7 porque estão em cantos opostos; 1 e 2 porque são retângulos; 3 e 4 porque apontam para o mesmo lado assim como 5 e 6 e formam um tipo de reflexão do centro; 3 e 6 porque fecham 4 e 5; 1 e S porque fecham 2, 3 e 4. Listei aqui apenas as unidades de dois triângulos. As unidades maiores são ainda mais complexas. O branco é mais complexo ainda e nem mesmo está incluído no diagrama porque é mais difícil de ter certeza quanto às suas peças elementares.

A pintura é significante, nem tanto devido à sobreposição nela (muitas pinturas possuem sobreposições), mas porque essa pintura não possui nada demais, exceto a sobreposição. É apenas o fato da sobreposição, e a multiplicidade resultante dos aspectos que as formas apresentam, que faz da pintura algo fascinante. Parece quase que o pintor teve a intenção explícita, como eu fiz, de manter a sobreposição como o fator gerador da estrutura.

Todas as cidades artificiais descritas possuem estruturas em árvore, ao contrário das estruturas semilattices da pintura de Nicholson. É ainda a pintura e outras imagens como ela que devem ser nossos veículos de pensamento. E quando desejamos ser mais precisos, o semilattice, sendo parte de um ramo maior da matemática moderna, é um modo poderoso de exploração das estruturas dessas imagens. É pelo semilattice que devemos procurar, não pela árvore.

Quando pensamos em termos de árvores estamos trocando a humanidade e a riqueza de uma cidade vibrante por um conceito simplista que beneficia apenas designers urbanos, planejadores, administradores municipais e empreiteiras. Todo o momento em que um pedaço da cidade é retorcido e um esquema de árvore é colocado no lugar de um semilattice que estava ali originalmente, a cidade dá um passo largo rumo a sua dissolução.

Em qualquer projeto organizado, a extrema compartimentação e a dissolução de seus elementos internos são os primeiros sinais da destruição em curso. Em uma sociedade, a dissolução é anarquia (n. do t. talvez o termo mais correto aqui seria anomia: falta de normas). Em uma pessoa, a dissolução é a marca da esquizofrenia e da tendência ao suicídio. Um exemplo de dissolução de toda a cidade é a separação das pessoas aposentadas do restante da vida urbana, causada pelo crescimento das cidades desertas para os mais idosos, como Sun City, no Arizona. Essa separação é possível apenas sob a influência do pensamento em esquema de árvore.

Ele não apenas tira os idosos da companhia dos mais jovens, mas pior, ele causa o mesmo rompimento na vida de cada indivíduo singular. Quando você passa por Sun City, e quando se é especialmente um senhor que viveu por lá, as raízes de seu passado estarão descoladas, perdidas e, portanto, rompidas. A sua juventude não estará mais presente em sua velhice – as duas estarão dissociadas; a sua própria vida estará cortada em duas.

Para a mente humana, a árvore é o veículo mais fácil para os pensamentos complexos. Porém, para a cidade, ele não é, não pode ser e não deve ser um esquema de árvore. A cidade é um receptáculo para a vida. Se o receptáculo interrompe a sobreposição dos laços de vida contidos nele próprio, pois uma árvore, ele será como uma tigela com lâminas em suas beiradas, prontas e afiadas para cortar o que estiver para entrar ou sair dali. Nessas condições, a vida será cortada em pedaços. Se planejarmos cidades como esquemas em árvore, elas irão cortar nossas vidas em pedaços.

 

Publicado originalmente em:

Architectural Forum, Vol 122, No 1, April 1965, pp 58-62 (Part I), Vol 122, No 2, May 1965, pp 58-62 (Part II)

Publicado também em:

Ekistics, Vol 23, pp 344 – 348, June 1967 Bell, G & Tyrwhitt, J(eds)

Human Identity in the Urban Environment, Harmondsworth, UK, Penguin Books, 1972

 Esta versão foi extraída de:

Design, No 206, February 1966, pp46-55

Disponível, em inglês, em: http://www.chrisgagern.de/Media/A_City_is_not_a_tree.pdf

Anúncios

3 Responses to Uma Cidade não é uma Árvore

  1. Nagirley Mrs Kessin Sales says:

    estou estudado a cidade jardim dos experiencias de Stein nas new towns e achei muito interessante a explanação do Alexander das estruturas arvore e semilattice, entretanto lendo o artigo não consegui entender suficiente para usa-lo no paper que estou escrevendo. Onde poderia encontrar uma leitura com muito mais explicação?

    • libertarq says:

      Olá. O texto original se chama a City is not a tree, mas contém as mesmas referência e idéias do texto traduzido. Não sei se pode te ajudar muito. Para complementar esse texto sugeriria a obra da Jane Jacobs – morte e vida das grandes cidades -, James Scott – seeing like the state- e Friedrich Hayek- the fatal conceit.

  2. Nagirley Mrs Kessin Sales says:

    Em Radburn Stein chama o conjunto de 20 casa de Enclave, de 2 a 4 enclaves ele chama bloco o conjunto de 5 blocos forma o superbloco vários superblocos o town que não podemos traduzir como cidade. depende da distância colocava a escola.
    Preciso encaminhar uma foto dessa questão pois parece-me que o super quadra dita por Alexander é o mesmo que super bloco. estou invocada com o que Alexander colocou que a cada super quadra uma escola na experiencia de Stein em Maryland.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: