Por que construir novas ruas e avenidas não reduz os congestionamentos


Por que construir novas ruas e avenidas não reduz os congestionamentos

Em 14 de Janeiro de 2014, por Andres Duany, Elizabeth Plater-Zyberk, and Jeff Speck – excerto do livro Suburban Nation: The Rise of Sprawl and the Decline of the American Dream

Há um problema muito mais profundo do que a forma como as estradas e avenidas são locadas e gerenciadas. Esse problema surge da questão de por que elas ainda são construídas em último caso. A simples verdade é que a construção de mais estradas, avenidas e o alargamento das existentes, quase sempre motivadas pela preocupação com os congestionamentos, não ajuda em nada para reduzir o problema. No longo prazo, na verdade, elas aumentam o problema. Essa revelação é tão contra-intuitiva que merece ser repetida: aumentar as faixas de rolamento torna o tráfego pior. Esse paradoxo surgiu já em 1942, levantado por Robert Moses, que notou o fato de as avenidas que construiu ao redor de Nova York em 1939 terem de alguma forma gerado ainda mais problemas de tráfego do que existia previamente. Desde então, o fenômeno tem sido bem documentado, mais notavelmente em 1989, quando a Associação dos Governadores do Sul da Califórnia concluiu as medições de tráfego, após a implantação de novas faixas ou mesmo com a sua duplicação, o que demonstrou que elas não foram nada mais que mero efeito cosmético para os problemas de trânsito de Los Angeles. O melhor que puderam fazer foi sugerir que as pessoas morassem mais perto do trabalho, contra o que a construção de novas avenidas sempre está lutando. Leia mais deste post

O Valor do Solo Urbano e as Consequências do Intervencionismo na Moeda


O Valor do Solo Urbano e as Consequências do Intervencionismo na Moeda

Em 27 de Novembro de 2013, por David.

Conforme expôs Menger (1988, p.34), para que algo adquira a qualidade de bem, quatro características devem convergir: a) existência de uma necessidade humana; b) que o item tenha qualidades que possam ser colocadas em nexo causal com a satisfação da necessidade humana; c) o conhecimento pelo indivíduo do nexo causal entre o item e a satisfação humana e d) o indivíduo poder dispor desse item efetivamente para a satisfação da referida necessidade.

Os bens que estão em direto nexo causal com a satisfação humana são, de acordo com o mesmo autor, de primeira ordem, sendo produzidos por bens de ordens superiores, que possuem nexo causal direto com seus respectivos bens inferiores e nexo causal indireto com o bem de primeira ordem. A moradia, no sentido aqui exposto, é um bem de primeira ordem, pois satisfaz necessidades humanas diretamente. Para a sua produção, são necessários diversos bens de ordens superiores, sendo um deles o solo urbano. Entretanto, há de se enfatizar que essa divisão mental entre as diversas etapas de produção serve apenas para estruturar o processo de análise, pois as diversas partes não existem sem o todo, nem mesmo o todo sem essas partes inter-relacionadas. Conforme afirma Mises (1995, p.335), o mercado é um processo coerente e indivisível. É um entrelaçamento indissolúvel de ações e reações, de avanços e recuos. Leia mais deste post

As conseqüências não intencionais do controle de aluguéis


As conseqüências não intencionais do controle de aluguéis

Em 13 de Novembro de 2013, por Art Carden

Suponha que você quisesse destruir uma cidade. Você deveria bombardeá-la ou seria necessário apenas impor controle de aluguéis? Essa é uma pergunta um pouco forte a princípio, mas alguns economistas têm argumentado que ambas são bastante equivalentes. Quando o preço dos aluguéis é mantido abaixo do nível claro do mercado, a escassez surge e o estoque de moradia rapidamente se deteriora.

Aqueles que pregam o controle de aluguéis freqüentemente o fazem continuamente com base em sua visão de justiça social. Não é correto, eles podem argumentar, que alguém que vive em algum lugar por toda a sua vida devesse ser expulso de sua vizinhança por causa do aumento de preços; nem é correto que um locador rico avarento se delicie com altos aluguéis porque um monte de gente queira morar em Nova Iorque ou São Francisco. A típica proposta de controle de aluguéis está baseada na idéia de que a mesma quantidade de atividade econômica será realizada, mas com uma distribuição diferente de resultados. Isto é, o mesmo número de apartamentos será ofertado e eles serão ofertados às mesmas pessoas e na mesma qualidade original. A única diferença, de acordo com os defensores do controle de aluguéis, é que o infeliz inquilino não terá que se submeter aos bolsos do locador. Qualquer mudança na quantidade de moradia será vista como uma falha moral da parte do senhorio. Leia mais deste post

O que é a questão da moradia?


O que é a questão da moradia? Notas sobre a precarização da moradia, o ideal da casa própria e a requalificação urbana segundo a visão marxista e uma crítica.

Em 29 de Outubro de 2013, por David

moradia

Morar em cidades significa um maior acesso a oportunidades que não são facilmente encontradas nas áreas rurais. Cidades grandes geralmente oferecem ainda melhores oportunidades, principalmente com relação ao acesso às amenidades urbanas, o acesso à educação, à saúde, ao saneamento e, talvez principalmente, o acesso ao mercado de trabalho. A cidade aumenta a produtividade do trabalho e permite maiores rendimentos para seus habitantes quando comparados aos moradores do campo. Esses benefícios atraem a população que espera se satisfazer dos ganhos em rendimento ou com outras questões pessoais, entretanto, os custos da cidade grande também são mais altos que o custo de vida no campo, ou em cidades menores.

Dentre os custos da cidade grande está o custo da moradia para o trabalhador que muitas vezes representa a maior porção de seu orçamento. Além disso, o acesso à moradia adequada é dificultado pelos altos valores cobrados e muitas vezes pela disponibilidade de habitações de boa qualidade. A crise da habitação e o déficit encontrados na maioria das cidades brasileiras, representado pela situação de moradias precárias em regiões sem infraestrutura, levantam o interesse de pesquisadores que buscam entender as razões dessa situação para buscar alternativas que melhorem esse cenário.

Entre os trabalhos mais citados entre urbanistas para responder às precárias condições de moradia, encontramos a obra “O Que é a Questão da Moradia?” dos pesquisadores Luiz C. de Queiroz Ribeiro e Robert M. Pechman ligados ao Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – IPPUR . A leitura dessa obra – embora pequena, de grande influência na área – é importante para entender os demais trabalhos sobre a moradia e as soluções propostas pelos técnicos atualmente, principalmente aqueles que possuem um viés marxista em suas leituras.

Este artigo visa apresentar a visão predominante entre autores marxistas utilizados como linha guia a visão dos autores do livro – ótimo representante da visão marxista sobre a questão da moradia – e apresentar críticas a essa visão, enfatizando os problemas das conclusões a que eles chegam. Suas críticas também apresentam esclarecimentos sobre o ideal da casa própria e sobre a requalificação urbana dentro de um contexto marxista e por isso merecem uma leitura crítica. Leia mais deste post

Investimento Imobiliário: muito bom para ser verdade


Investimento Imobiliário: muito bom para ser verdade

Em 22 de Outubro de 2013, por Mark Thornton – texto originalmente publicado em 04/06/2004

Sinais de uma “nova era” na habitação estão em todos os lugares. A construção imobiliária está acontecendo em níveis recordes. Novos recordes para os preços no mercado imobiliário estão cruzando o país, especialmente nas costas leste e oeste. O boom nos preços de moradias e o recorde dos baixos níveis dos juros estão permitindo proprietários imobiliários a refinanciarem suas hipotecas, “extraírem o lucro” para aumentarem os seus gastos e reduzirem seu pagamento mensal. Assim como um profissional do setor de empréstimos explicou a mim: “é quase bom demais para ser verdade.”

Na verdade, isso é realmente bom demais para ser verdade. O que os profetas do novo paradigma imobiliário não discutem é que o mercado imobiliário experimentou ciclos similares no passado e que aqueles períodos descritos como novos paradigmas são freqüentemente seguidos de períodos de acomodação nos mercados, incluindo embargos de vendas, falências e falhas bancárias.

O caso da bolha imobiliária japonesa é instrutivo. O Japão teve uma bolha no mercado de ações na década de 1980 que foi muito similar à bolha americana da década de 1990. Assim que o mercado de ações japonês começou a ruir, o mercado imobiliário continuou a ser inflado. Um índice geral do mercado imobiliário japonês mostra que os preços subiram por quase dois anos após o crash do mercado de ações com preços ficando acima dos níveis pré-crash por mais de 5 anos. O boom na construção civil continuou por aproximadamente seis anos após o crash do mercado de ações. Os preços para imóveis comerciais, industriais e residenciais no Japão continuam a cair e estão abaixo dos níveis mensurados em 1985 quando essas estatísticas foram coletadas.

Já se passaram três anos desde que o mercado acionário americano quebrou. O presidente do Federal Reserve System – FED: o Banco Central Americano – Alan Greenspan indicou que os níveis de juros poderiam em breve reverter seu curso, enquanto as taxas de juros de longo prazo já se moveram para cima. Taxas de juros deveriam engatilhar um reverso no mercado imobiliário e expor as falácias desse novo paradigma, incluindo como o boom imobiliário ajudou a encobrir os aumentos da inflação de preços. Infelizmente, essa exposição irá ferir os proprietários e o maior problema é que possa atingir o pagador de impostos americano, que poderia ser forçado a socorrer os bancos e as hipotecas subsidiadas pelo governo a garantidores que encorajaram essas práticas irresponsáveis de crédito. Leia mais deste post

Leis de zoneamento destroem comunidades


Leis de zoneamento destroem comunidades

Em 02 de Outubro de 2013, por Try Caplin

As leis de zoneamento são uma violação de direitos de propriedade. Elas destroem o senso de comunidade da vizinhança, aumentam o crime, aumentam os congestionamentos, contribuem para a poluição do ar urbano e suburbano, contribuem para o empobrecimento, contribuem para a confiança no governo e contribuem com a ruína de nossas escolas. Muitos de nossos problemas urbanos e suburbanos surgiram com o zoneamento e com leis antipropriedade, para as quais programas de bem-estar e projetos de moradia pública têm contribuído. Cada uma dessas políticas surgiu da idéia de que a sociedade poderia e deveria ser desenhada de cima para baixo para aumentar a eficiência, o senso de comunidade e a prosperidade. O que de fato aconteceu foi justamente o contrário. Leia mais deste post

Observações Gerais Relativas à Teoria da Renda


Observações Gerais Relativas à Teoria da Renda

Em 20 de Agosto de 2013, por Ludwig von Mises – Excerto do livro Ação Humana, um tratado de economia, p. 725-28.

O conceito de renda formulado por Ricardo em sua teoria econômica já procurava resolver os problemas que a economia moderna aborda por meio da teoria da utilidade marginal. [1] A teoria de Ricardo, à luz de nossos conhecimentos atuais, resulta bastante insatisfatória; não há a menor dúvida de que a teoria do valor subjetivo é muito superior. Não obstante, o renome da teoria da renda é bem merecido; o cuidado com que foi formulada e aperfeiçoada produziu resultados notáveis. Não há razão para que a história do pensamento econômico sinta vergonha da teoria da renda. [2]

O fato de que terras de diferentes qualidade e fertilidade, isto é, terras que produzem rendas diferentes por unidade de aporte, tenham valores diferentes, não representa, para a teoria econômica moderna, um caso especial. A teoria de Ricardo, no que se refere à gradação da valoração e avaliação de terras, está integralmente compreendida na teoria moderna dos preços dos fatores de produção. Não é o conteúdo da teoria da renda que é objetável, e sim o fato de ela ter sido considerada como uma exceção no sistema econômico. Rendas diferenciais são um fenômeno geral e não se limitam apenas à formação do preço da terra. A falsa distinção entre “renda” e “quase renda” é insustentável. A terra e os serviços por ela prestados devem ser tratados da mesma maneira que qualquer outro fator de produção e seus respectivos serviços. O aumento de rendimento obtido com o uso de uma ferramenta melhor pode ser considerado como uma “renda” adicional em relação ao rendimento obtido com ferramentas menos adequadas que são usadas justamente por não se dispor de outras mais adequadas. Da mesma forma, o aumento de salário obtido por um trabalhador mais hábil e mais zeloso pode ser considerado como uma “renda” adicional em relação aos salários obtidos por outros trabalhadores menos talentosos e menos esforçados. Leia mais deste post

A Cidade Empreendedora: o mercado como processo produtor da cidade e do meio ambiente


A Cidade Empreendedora: o mercado como processo produtor da cidade e do meio ambiente

Em 23 de Julho de 2013, por Spencer Heath MacCallum

Estamos sempre ouvindo sobre a conservação do meio ambiente, mas ninguém fala nada sobre produzi-lo. Por que não produzir um meio ambiente saudável competitivamente e vendê-lo nos mercados livres como outros bens e serviços – e mesmo dentro de pacotes com outros produtos? Como questão de fato, isso já tem sido feito. Ele é relativamente um novo produto e seus produtores não são muito visíveis e dificilmente veremos mais do que isso no futuro.

Para explicar essa proposição pouco concreta, devo primeiramente analisar uma nova estrutura de incentivos que apenas agora está sendo explicitamente reconhecida no mercado imobiliário. Então deverei descrever um cenário empírico que vem se desenvolvendo há quase duzentos anos. Finalmente, devo explicar por que isso é mais do que mero interesse acadêmico.  Na luz dos incentivos presentes, a tendência histórica possui implicações inesperadas e socialmente importantes.

Não importa muito se a estrutura de incentivos que descreverei está apenas em sua infância, já que ela sempre será uma tendência, ao contrário de qualquer estágio de desenvolvimento; isso é significativo. Entretanto, antes de traçar a lógica por trás desses incentivos, um termo chave deve ser definido. Para o momento, falaremos apenas do termo abstratamente como terra. Leia mais deste post

Jane Jacobs: uma forasteira libertária


Jane Jacobs: uma forasteira libertária

Em 02 de Julho de 2013, por Jeff Riggenbach

Quando Jane Jacobs morreu em 25 de abril de 2006, houve um breve pico de interesse em algumas publicações libertárias – uma breve homenagem foi feita à ela no mises.org – mas esse pico logo se arrefeceu. E, desde então, fora um pequeno e perceptivo artigo sobre ela no lewrockwell.com e uma resenha extremamente inteligente na recente biografia de Jacobs no Journal of Libertarian Studies em 2007, não vi mais nenhuma referência na mídia em geral sobre uma das intelectuais mais importantes de língua inglesa do século XX que, sabendo ela disso ou não, também fora uma libertária.

Não que os autores daqueles pequenos artigos sobre Jacobs tenham tanto respeito por sua obra – eles realmente tinham. Pierre Desrochers, o geógrafo canadense que escreveu “Morte e Vida de um Relutante Ícone Urbano” para o Journal of Libertarian Studies, chamou Jacobs de “a escritora mais influente sobre as cidades na última metade do século” e Thomas Schmidt, que escreveu  “Ludwig von Mises, Meet Your Leibniz para o Lewrockwell.com no final de abril de 2010, chamou Jacobs de “uma pensadora e teórica urbanista original” cuja obra de 7 livros possui poucas ou nenhuma referência austríaca em sua bibliografia e mesmo assim suas conclusões freqüentemente parecem meramente um modo diferente de afirmar as mesmas descrições de Mises.

Schmidt nota, no começo de seu artigo, que:

Se uma teoria cientifica fornece uma descrição verdadeira da realidade, ela se manifestará de algumas formas. De um jeito, aproximações diferentes para a verdade irão todas converter na mesma realidade descrita, para outra, uma teoria congruente com a realidade irá revelar sua verdade em mais áreas que a área de observações empíricas que a originalidade permitiu. Assim, o desenvolvimento do cálculo de Newton coincidiu com o de Leibniz, ambos trabalhando com o mesmo método analítico matemático existente na época … se a economia austríaca também reflete uma realidade descritiva, ela deve da mesma forma se aproximar por diferentes métodos e ser verdadeira fora da pura economia, como Mises pretendia que a praxeologia fosse aplicável por toda a ciência social.

Na visão de Schmidt, Jane Jacobs se manteve para Mises como Leibniz estava para Newton. Ambos, independentemente, descobriram a mesma verdade por meio de diferentes pontos de vista e empregaram, de alguma forma, diferentes metodologias.

Pierre Desrochers vê Jacobs de um modo muito semelhante. A primeira vez que ele leu uma obra sua foi por volta de 1990 quando era estudante na Universidade de Montreal e ele declarou, 17 anos mais tarde no Journal of Libertarian Studies, que “sua escrita sobre os mercados como sistemas complexos adaptativos tinham tornado-no de um escritor de centro esquerda um devoto da ordem espontânea muito antes de sequer ter ouvido falar do libertarianismo e da economia austríaca.”

“Ordem espontânea”, é claro, é um conceito muito mais proximamente associado com Friedrich Hayek que com Ludwig von Mises e não há escassez de comentaristas que tenham comparado Jane Jacobs com Hayek. O professor de administração David Emanuel Andersson disse, por exemplo, que o primeiro e mais famoso livro de Jacobs, Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas, e o ensaio mais famoso de Hayek sobre o Uso do Conhecimento na Sociedade contam essencialmente a mesma história. Poderia-se até mesmo dizer que o paper de Hayek de 1945 é um sumário mais generalizado e abstrato dos argumentos centrais do livro de Jacobs de 1961.

Consideremos outro exemplo: Gene Callahan e Sanford Ikeda, em um valioso artigo sobre Jacobs publicado há oito anos, escreveram que “seu trabalho está cheio de argumentos e insights sobre a natureza econômica das comunidades, sobre o planejamento central e sobre ética que libertários achariam muito originais e esclarecedores”. Eles citaram sua observação do Morte e Vida que diz que as cidades são “problemas de complexidade organizada”, que requerem que aqueles que as estudam sejam capazes de “lidar simultaneamente com um número bastante grande de fatores que estão inter-relacionados em um todo o orgânico”. Eles também notam seu argumento contra o que chamam de “planejamento local de mão pesada”, principalmente porque esse tipo de planejamento falha em não levar em consideração os subconjuntos de conhecimento possuídos apenas pelos indivíduos em ação (para os quais ela cunhou a expressão conhecimento da localidade) e que isso inapropriadamente imita [as técnicas] da ciência física do século XIX.

Callahan e Ikeda parabenizam Jacobs no que eles chamam de “domínio inato do poder da troca voluntária e da ordem espontânea” e seu “individualismo metodológico e subjetivismo” na abordagem das questões em que trabalha. E eles comentam que “os paralelos” entre as idéias que ela formula em seu primeiro livro e os conceitos hayekianos de ordem espontânea, conhecimento local e cientificismo são admiráveis, especialmente porque ela não tinha familiaridade com o trabalho de Hayek naquele tempo.

Na época em que Morte e Vida foi publicado, Jacobs tinha 45 anos. Ela nasceu Jane Isabel Butzner em 4 de maio de 1916 em Scranton, Pennsylvania, filha de um próspero médico e sua esposa, enfermeira. A jovem Jane cresceu em Scranton, graduou-se lá e conseguiu emprego em um jornal local, o Scranton Tribune como escritora e editora para as páginas femininas. Um ano depois, aos 19, mudou-se para Nova York em busca da própria sorte.

Era 1935, abismo da Grande Depressão. Antes de se mudar, fizera um curso de datilografia e caligrafia, assim poderia se candidatar para um emprego de escritório caso não encontrasse no jornalismo e ela realmente trabalhou como estenógrafa durante seus primeiros anos em Nova York, mas não foi tão demorado até que ela começasse a vender artigos para jornais e revistas – primeiro para as revistas Cue e Vogue, então para matérias principais nos domingos do New York Herald Tribune durante a gestão de Isabel Paterson no jornal.

Em 1937, aos 21 anos, utilizando o dinheiro que seus pais reservaram para o propósito, ela se matriculou na universidade. Como conta sua biógrafa, Sparberg Alexiou, Jane Butzner se matriculou na School of General Studies da Universidade de Columbia como uma estudante visitante, o que significava que ela poderia estudar o que quisesse. Pela primeira vez em sua vida, Jane encontrou-se surpresa por gostar dos estudos formais e ela até mesmo tirou boas notas.

Em Scranton, na escola, ela se aborrecia com o currículo e levava livros sobre assuntos que a interessavam, prestando nenhuma atenção ao que era dito nas aulas, o que tinha como resultado notas medíocres. Agora ela estudava qualquer coisa que gostasse – geologia, zoologia, economia, geografia, direito constitucional – e ela era uma boa estudante. Porém, de acordo com Alexiou, após dois anos nos Estudos Gerais, Jane necessitou se matricular, o que significou que precisava ingressar na Barnard College. Contudo, Barnard rejeitou sua aplicação, apesar de seu ótimo currículo acumulado em Columbia. A faculdade feminina baseou suas decisões nas terríveis notas do ensino médio.

Jane decidiu não se importar. Como ele disse em uma entrevista anos mais tarde, “uma vez que fosse de propriedade da Barnard eu tinha que fazer, parece-me, o que Barnard quisesse que eu fizesse, não o que eu gostaria de aprender. Felizmente, minhas notas do colégio foram tão ruins que a Barnard decidiu que eu não poderia pertencer a ela e eu estava, portanto, permitia a continuar minha educação” pelos meios de leituras independentes. Ela também decidiu procurar trabalho. Talvez alguns anos de sucesso em freelances com seus artigos e alguns anos de estudos em Columbia a ajudassem a um emprego na edição?

E isso aconteceu. Ela recebeu uma oferta de trabalho na Iron Age, uma revista de negócios sobre a indústria do ferro e do aço. De lá ela se mudou para um bico como escritora de artigos para o Escritório de Informações da Guerra, que, durante seus três anos de existência, foi a maior editora de revistas do mundo. De lá, ao final da guerra, ela mudou-se para a Amerika, uma produção extremamente cara publicada pelo Departamento de Estado durante os primeiros anos da Guerra Fria, começando em 1944. Amerika era publicada para distribuição na União Soviética para informar seus cidadãos sobre a vida nos Estados Unidos. Foi escrita em inglês por escritores americanos como Jane Butzner, então traduzido para o russo, colocada nas máquinas e impressa. Quando ela cessou suas publicações em 1952, Jane, então com 36 anos, mudou-se para uma associação de editores e equipe de escritores no Architectural Forum, um produto da Henry Luce’s Time.

E foi por meio dessa publicação – Architectural Forum – o último emprego que ela teve no jornalismo que ela finalmente encontrou tanto a fama quanto sua sorte no final da década de 1940. Quando ela entrou na revista, de acordo com Alice Sparberg Alexiou, a ela foram passados os assuntos sobre escolas e hospitais, sobre o que ela nada conhecia. ‘Você será nossa especialista em escolas e hospitais’, disse-lhe o editor. Anos mais tarde ela disse: ‘então sempre ache suspeitas as revistas! Eu não sabia bulhufas sobre isso … e alguém com uma impressora diz que você é especialista’.”

Nesse tempo, entretanto, Jane Butzner casou-se com um arquiteto chamado Robert Jacobs em 1944. Ele ensinou à esposa como ler projetos e serviu como seu tutor e consultor nessa nova empreitada para aprender o suficiente sobre projetos de escolas e hospitais e poder, competentemente, cobrir o assunto para a Architectural Forum. Além disso, é claro, ele mudou o foco de sua esposa no jornalismo ao final da década. Ele transformou Jane Butzner em Jane Jacobs, o nome pelo qual se tornou famosa. Naquele tempo, ela ainda não era famosa e estava encarando um problema no trabalho.

Agora que ela tinha finalmente se profissionalizado no assunto, ela foi designada para um desafio novo e mais instigante: o planejamento urbano. Como sempre antes daquilo, ela se debruçou de corpo e alma no assunto de forma autodidata. Quais eram os objetivos do planejamento urbano? Ela se perguntava. Como eles querem alcançar seus objetivos? Qual o sucesso de suas tentativas no passado? Se falharam, qual foi a causa?

Para alcançar essas questões, ela começou a andar e passear de bicicleta por Manhattam. Ela observou. Perguntou-se como uma cidade funciona, o que a tornava ordeira, o que a tornava um lugar onde as pessoas podiam viver felizes, beneficiando-se das vizinhanças em que viviam.

As conclusões que chegou, como indicado, eram similarmente às de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek chegaram por rotas diferentes. Uma cidade é, basicamente, um mercado. Ela é uma ordem espontânea. Ela não pode ser planejada. As pessoas que tentam planejar cidades falham acima de tudo porque elas não compreendem os meios pelos quais a ordem espontânea funciona.

Jacobs escreveu sobre o que ela observou e sobre o que ela inferia de suas observações no Architectural Forum. Um livro foi encomendado a ela pela Random House e ela encaminhou o manuscrito no início de 1961. O livro foi publicado no final daquele mesmo ano – há mais de meio século – como Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas e pode ser dito com muita segurança que ele levou o mundo a questionar-se. As idéias que ele contém, que varreram as faces de tudo o que se sabia entre os planejadores e os estudantes de planejamento à época, são hoje tidas como verdades concretas que devem ser levadas em conta por qualquer estudante sério de urbanismo e de planejamento. Morte e Vida é um daqueles livros que realmente mudam seu leitor – incapaz mesmo de pensar sobre o assunto de uma forma diferente daquela que ele leu em suas páginas.

Esse primeiro livro foi um grande desafio de ser copiado em grandeza mas Jacobs o fez, com outros dois livros de comparável originalidade e importância nas próximas duas décadas: The Economy of Cities em 1969 e Cities & the Wealth of Nations em 1984.

Ao tempo do primeiro deles, o A Economia das Cidades foi publicado em 1969, Jacobs e seu marido pegaram seus três filhos, incluindo dois em idade militar, e deixaram nova York para Toronto onde se tornaram cidadãos canadenses. Eles se opunham à Guerra do Vietnam, contaram a repórteres, e queriam ter certeza de que seus filhos não pudessem ir para a guerra forçados a lutar. Jane Jacobs levou 38 anos vivendo no Canadá, um pouco mais da metade de sua vida adulta. Lá ela faleceu, em Toronto, em 25 de abril de 2006 e hoje é descrita, com tamanha justiça, como uma “escritora e ativista canadense de naturalidade americana”.

Parece que ela teve acesso a alguma informação libertária oficial em 1970, quando Murray Rothbard revisou seu segundo livro, A Economia das Cidades, em seu  Libertarian Forum, chamando-o de “trabalho brilhante e cintilante que celebra o desenvolvimento econômico, do passado e do presente, das cidades de livre mercado”. Porém, foi em 1980, quando o Laissez Faire Books começou a publicar o Morte e Vida e fez uma resenha laudatória (escrita por mim) do livro de 1984 de Jacobs, Cities & the Wealth of Nations, no catálogo mensal, que Jacobs e suas idéias realmente começaram a penetrar a mente libertária de modo importante. Em 1985, quando Cities & the Wealth of Nations ganhou o prêmio Mencken da libertária Free Press Association como o melhor livro de apoio aos direitos individuais publicados no ano precedente, a associação pública das idéias de Jane Jacobs com o libertarianismo começaram a ganhar destaque.

Dois anos mais tarde, em 1987, o anarcocomunista Murray Bookchin, que em algumas ocasiões participou de mesmas causas que libertários, enobreceu Cities & the Wealth of Nations dizendo que ele “permanece como uma das melhores contribuições de Jane Jacobs para demonstrar de uma forma bastante articulada que nosso bem-estar econômico depende das cidades, não em estados nacionais” e que “seu argumento convida a um debate sobre a superfluidade do estado que há tempos é negligenciada”. Nessa época, embora o reconhecimento, Jacobs afastou-se alguns passos da tradição libertária. Um entrevistador disse-lhe em 1985: “cada vez mais … tenho visto pessoas a identificarem você com o libertarianismo. Você aceitaria essa caracterização?”

E ela respondeu:

Sou totalmente a favor da ajuda aos pobres e a dar às pessoas uma boa educação que possa ser usada – não o que elas possam pagar. Acredito que a saúde, não ligada ao dinheiro, é terrivelmente importante … os libertários dizem “olha, nem deveríamos ter leis sobre drogas. Isso é responsabilidade das pessoas sobre elas mesmas. Não deveríamos ter centenas de leis sobre coisas que não prejudicam as pessoas”. Não tenho tanta certeza sobre isso. Acho que as pessoas precisam de ajudas de vários tipos. Deve ser empírico, pragmático, você deve ver o que acontece. Deve tentar reconhecer erros, não apenas continuar fazendo-os porque você não sabe o que mais fazer. Não tenho uma noção sentimental de que todo ser humano seria maravilhoso se não fossem espoliados – isso não é verdade. Mas por não querer ajudar aos pobres ou dizer “deixe todos se erguerem com as próprias pernas”, não, eu não acredito nisso.

Então, por sua própria conta, Jane Jacobs não era uma libertária. Por sua própria conta, Ludwig von Mises não era um anarquista. Ainda assim, Murray Rothbard e outros ainda argumentam que a lógica do trabalho de Mises leva o leitor a concluir que não há lugar legítimo para um governo coercitivo – o estado – em uma sociedade baseada na propriedade privada e na livre troca.

Similarmente, a lógica básica do trabalho de Jane Jacobs deve levar o leitor atento inexoravelmente a uma visão libertária das relações sociais humanas. Jane Jacobs nunca percebeu que o libertarianismo era exatamente o que ela era, embora relutante contra essa visão que parecia a ela um pouco sem coração. Ela foi, talvez, a maior forasteira libertária

Duas Formas de Favelas


Duas Formas de Favelas

Em 04 de Junho de 2013, por Gary North

Na década de 1980, fui convidado para proferir algumas palestras durante um cruzeiro pelo Caribe. Ganhei um tíquete para o “The Love Bloat”. Comida, comida e mais comida!Eu até mesmo sonhava com comida. Parte da viagem envolvia uma breve passada por Caracas, Venezuela. O navio atracou a cerca de uma hora ao norte da cidade e os ônibus de turismo nos levaram até a capital.

Nas franjas de Caracas, ao longo de uma encosta, havia uma favela diferente de todas que eu já tinha visto antes, ou mesmo que viria a ver depois. Assim que passávamos, podíamos ver à distância aquela massa uniforme, mas alguns binóculos nos permitiam enxergar com mais detalhes. Aquilo era uma massa misturada e empilhada de placas de metal corrugado formando barracos.

Mais tarde, li notícias sobre essas cidades das encostas de montanha. Elas não possuem esgoto. Elas estão lotadas de pessoas que de alguma forma se locomovem para a cidade grande distante e abaixo. Doenças sérias freqüentemente se espalham por essas comunidades. Não consigo nem mesmo imaginar como é viver sob tais condições.

Alguém no ônibus me disse em privado: “que coisa incrivelmente feia!”. Pensei sobre aquela afirmação durante o restante da viagem até a cidade. E ainda penso sobre aquilo de vez em quando. Sim, aquela aglomeração de placas era realmente feia. Esteticamente, era uma afronta aos nossos sentidos.

Até mesmo a feiúra pode ser uma causa para a nossa alegria. É a marca da liberdade. Quando essas favelas feias surgem, sem qualquer planejamento e sem qualquer investimento público envolvido, sabemos que homens livres estão fazendo o seu melhor para encontrar o melhor lugar para morarem, uma melhor maneira para viverem. Muitos deles, podemos ter certeza, estão fazendo planos para dali saírem. Leia mais deste post

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