O Arquiteto Totalitário: A dolorosa influência de Le Corbusier


O Arquiteto Totalitário: A dolorosa influência de Le Corbusier

Em 08 de Janeiro de 2014, por Theodore Dalrymple

Le corbusier foi para arquitetura o que Pol Pot foi para a reforma social. De certa forma, ele teve menos desculpas por suas atividades que Pol Pot, pois diferentemente do cambojano, ele possuía um grande talento, até mesmo genial. Infelizmente, ele transformou seus dons para fins destrutivos e não é coincidência que ele serviu prazerosamente tanto para Stalin quanto para o Vichy. Como Pol Pot, ele gostaria de começar tudo do zero: “antes de mim, nada; depois de mim, tudo!”. Por sua própria presença, as torres de concreto aparente que o obcecavam cancelaram séculos de arquitetura. Dificilmente alguma cidade ou vila na Grã-bretanha (para escolher apenas uma nação) não viu sua composição ser esculhambada por arquitetos e planejadores inspirados por suas idéias.

Escrever sobre Le Corbusier freqüentemente começa com algo sobre sua importância, algo como: “ele foi o arquiteto mais importante do século XX”. Admiradores podem concordar com esse julgamento, mas sua importância é, claro, moralmente e esteticamente ambígua. Afinal de contas, Lênin foi um dos mais influentes políticos do século XX, mas a sua influência para a história, não os seus méritos, que o tornaram assim: como Le Corbusier. Assim como Lênin ainda é reverenciado após toda a sua monstruosidade e isso é óbvio para todos, da mesma forma Le Corbusier continua a ser reverenciado. Na verdade, existem forças que retomam a adulação. Nicholas Fox Weber acaba de publicar uma biografia laudatória e exaustiva e a Phaidon publicou um livro enorme e muito caro devotado ao trabalho de Le Corbu. Ainda foi apresentada uma exibição hagiográfica sobre o arquiteto em Londres e Rotterdam. Em Londres, a exibição aconteceu em um complexo de edifícios hediondos, construídos na década de 1960, chamados Barbican, cujo brutalismo no concreto parece desenhado para humilhar, rebaixar e confundir qualquer ser humano infeliz o suficiente para tentar encontrar um caminho dentro dele. Barbican não foi desenhado por Le Corbusier, mas com certeza foi inspirado por seu estilo particular de arquitetura desalmada.

Durante a exibição, conversei com duas madames que aparentemente gastam suas tardes em exibições. “Maravilhoso, não acha?” uma delas disse a mim, a quem respondi: “Monstruoso!” ambas arregalaram os olhos como se eu acabasse de negar Allah em plena Mecca. Se a maioria dos arquitetos reverencia Le Corbusier, quem somos nós, meros leigos, meros humanos esmagados por seus edifícios, que não sabemos nada dos problemas da construção civil, para criticá-lo? Aquecendo para meu tema, falei dos horrores do material favorito de Le Corbusier, concreto armado, que não envelhece graciosamente, mas com trincas, manchas e danos. Um único edifício dele, ou algum inspirado por ele, poderia arruinar a harmonia de toda uma cidade, insisti. Um edifício corbusiano é incompatível com qualquer coisa, exceto ele próprio. Leia mais deste post

A Moradia na União Soviética


A Moradia na União Soviética

Em 15 de Outubro de 2013, por Master and Margarita

A propriedade privada da moradia foi abolida na União Soviética em 1918. Novas leis foram criadas para decidir quem poderia morar onde fosse planejado. A situação era particularmente complicada nas cidades para onde muitos proprietários se mudaram e houve grande imigração. O colapso imobiliário resultante dura efetivamente até os dias de hoje. As autoridades planejadoras do setor imobiliário determinavam quem deveria viver em cada local. Muitos prédios de apartamentos possuíam um comitê de Moradia administrado por um Gerente Residencial. Um exemplo muito semelhante de como isso funcionava pode ser visto na figura do Doutor Zhivago (1965), filme dirigido por David Lean e baseado no famoso romance de Boris Pasternak. Outro exemplo que apresenta de forma incrível o problema da moradia é o filme dirigido por Régis Wargnier Est- Ouest de 1999.

Se o apartamento parecesse muito grande para os inquilinos e se eles tivessem a sorte de poderem permanecer, eles eram forçados a dividir o espaço com quem o Comitê de Moradia autorizasse a se mudar. Algumas vezes grandes apartamentos eram simplesmente divididos. Por exemplo, um apartamento de três quartos pertencente a uma família se tornaria por decreto um apartamento de três quartos para três famílias. A cozinha, o hall e os banheiros deveriam ser compartilhados. Freqüentemente existia ressentimentos entre as várias famílias vivendo nos chamados коммунальная квартира (kommunalnaya kvartira), ou apartamentos comunais, especialmente se uma das famílias fosse a proprietária original ou se todas as famílias continuassem vivendo juntas por anos. Leia mais deste post

O Direito à Moradia Digna


O Direito à Moradia Digna

Em 24 de Setembro de 2013, por David

Diz o artigo 6º da constituição brasileira que a moradia é um direito social. E o que isso quer dizer exatamente?

Qualquer direito é necessariamente social se encararmos o fato de que só há a necessidade da definição e proteção de direitos em um ambiente social. Direitos são necessários para a defesa contra a agressão, que é uma atitude anti-social. Neste sentido, o direito tem a função de nos proteger da agressão de agentes anti-sociais.

A idéia mais difundida sobre direitos atualmente se baseia na crença de que direitos são aqueles definidos politicamente na legislação do país e obrigação do estado em garantir. Porém, pensemos um pouco mais a fundo com relação a isso para verificarmos se esse modelo legal é realmente justo.

O que você diria se algum vizinho entrasse em sua casa e te obrigasse a pagar pela sua reforma e, caso você não aceitasse, ameaçasse processá-lo? Você aprovaria isso como um direito do seu vizinho e dever seu de trabalhar para ele sem o seu consentimento? Acredito que você negaria o direito do seu vizinho a obrigá-lo pela reforma e ainda o trataria com escárnio pela tentativa de agressão.

E se seu vizinho atribuísse a mesma ação a agentes do estado seguindo e representando a legislação aprovada? O que você diria desse arranjo, não do ponto de vista legislativo, mas moral? O que antes era uma agressão tornou-se justo devido à ação do agente estatal? Onde está a justiça desse arranjo?

Tentemos esclarecer os conceitos para melhorar nossa compreensão dos fatos. A moradia é realmente um direito, no entanto, apenas enquanto conceito negativo. Digo com isso que deve ser garantida nossa proteção contra a agressão de qualquer agente anti-social que, por algum motivo, procure retirar à força nosso direito à moradia. Porém, desse direito não decorre logicamente qualquer direito nosso de poder obrigar alguém a providenciar um teto sobre nossas cabeças. Este seria um direito à moradia segundo conceito positivo e, como tal, somente poderia existir eticamente mediante contrato voluntário no qual os envolvidos concordam com os termos: troca-se um pagamento pela moradia e a moradia pelo pagamento. Neste caso, o direito positivo de obrigar o contratado a fornecer a moradia contratada existe, pois foi formalizado um contrato entre as partes. Caso esse contrato seja desrespeitado, por qualquer uma das partes, haverá uma agressão. O direito positivo pode ser estabelecido somente ao respeitar os direitos negativos mediante um contrato. Direitos positivos, como estão sendo aqui conceituados, não podem existir de forma justa se não houver consentimento dos envolvidos.

O problema surge quando direitos sociais não são encarados como direitos verdadeiros, derivados do direito negativo, mas como privilégios políticos. Ao contrário de ter o direito negativo à moradia, ou seja, de ser protegido contra agressores, passo a ter o direito a um teto provido por alguém sem que essa pessoa tenha consentido. Não há contrato. Quem paga por minha moradia não teve escolha, foi coagido e, portanto, teve seus direitos negativos agredidos. Políticos e toda a sua base de apoio chamam esse esquema de contrato social e os direitos inventados de direitos sociais. Meu direito positivo passa a existir pelo simples fato de eu existir em alguma aglomeração humana politicamente definida, sem ter acordado nada com ninguém. Nestes casos, o “direito social” acaba se tornando um termo-doninha, um weasel-word.

O weasel-word é um subterfúgio que busca engrandecer um conceito quando, na verdade, está-se falando de coisas vagas, imprecisas, confusas e mesmo ambíguas. O uso de termos-doninha procura evitar afirmações diretas que carregam seu verdadeiro significado, de modo a amenizar declarações chocantes e controversas. É o caso do seu vizinho obrigando-o a reformar a sua casa. Direito social, justiça social, moradia social, contrato social, função social, entre outros, são termos-doninha [1]. A inserção da palavra “social” esvazia o conceito das primeiras palavras como as doninhas sugam os ovos sem deixar marcas aparentes em suas cascas.

Uma “justiça social” não é mais justa, um “direito social” deixa de ser direito e a “moradia social” se torna um privilégio que agride a instituição dos direitos negativos que tornam uma aglomeração humana uma sociedade pacífica. Nestes casos, como salienta Hayek, o “social” deveria, na verdade, ser chamado de “anti-social”. [2] Leia mais deste post

Planificação e Pagodes


Planificação e Pagodes

Em 16 de Julho de 2013, por Roger Toutant

Há pouco tempo assisti a uma apresentação de um engenheiro que trabalhava na promoção do uso de madeira na construção de edifícios industriais e comerciais. Tradicionalmente, a madeira nunca foi utilizada em grande escala para construções, excluindo a área residencial. A principal proposta da apresentação era demonstrar que a madeira pode substituir o concreto e o aço em muitos projetos de grandes dimensões.

O engenheiro trouxe a questão de que algumas das estruturas mais antigas e altas no mundo são os pagodes de madeira que foram construídos séculos atrás. Por exemplo, o Pagode de Palsangieon na Coréia foi primeiramente construído em 553 d.C. e permaneceu por mais de dez séculos em pé até que os danos durante a guerra com o Japão exigiram sua reconstrução em 1626 [1]. O pagode reconstruído ainda está de pé até hoje, quase quatro séculos mais tarde. O Pagode Sakyamuni de 67 metros de altura na China foi primeiramente construído em 1056 d. C. [2]. Essa edificação majestosa suportou fortes abalos sísmicos após séculos e ainda se mantém sólido como esteve há quase mil anos.

Sua apresentação deixou óbvio que a Madeira é um material de construção excelente: ela é tecnicamente bem entendida, ela é durável e pode ser utilizada com muito sucesso para a montagem de estruturas. Achei um pouco estranho que, em pleno ano de 2012, argumentos tivessem que ser defendidos em favor da madeira em projetos de construção.

Então, no final de sua fala perguntei a ele se aqueles Pagodes antigos e magníficos poderiam passar pelos códigos e padrões construtivos modernos. Ele pensou por um momento e então me respondeu com um sonoro “não”. Pelo fato de a madeira como material e de suas técnicas construtivas não passarem pelos códigos estatais, a sua utilização em construções seria declarada ilegal. Agora pense no absurdo: códigos construtivos modernos tornam ilegal para um engenheiro ou arquiteto projetar e calcular estruturas idênticas aos maravilhosos, seguros e duráveis Pagodes como o Sakyamuni.

O absurdo é compreendido assim que se reconhece que os códigos e padrões da construção civil são como qualquer outra legislação vertical – top-down – que surge das burocracias do planejamento central. Porém, como surgem esses códigos de obras em primeiro lugar? Alguns dos códigos se originam com burocratas do governo que acreditam que conhecem melhor como destilar o vasto conhecimento dos métodos construtivos e de suas tecnologias dentro de milhares de regras legalmente exigidas. E alguns se originam com interesses especiais, como de organizações privadas ou de indivíduos, que fazem lobby junto aos burocratas que então escreverão códigos em seu favor e de seus interesses de negócios. Depois de tudo, os códigos podem ser utilizados para criar barreiras contra competidores que de outra forma seria impossível de criar na livre iniciativa. Por exemplo, aqueles nas indústrias de concreto e de aço podem fazer lobby junto aos burocratas favorecendo o aço e o concreto em certas aplicações na indústria, com o objetivo de suprimir a utilização de materiais competidores como a madeira.

Se a maneira como os códigos de obras são produzidos é dúbia de algum modo, então a maneira na qual eles são vendidos ao público e aos políticos é exageradamente dúbio. Tradicionalmente, os códigos têm sido vendidos como sendo necessários para manter o público “a salvo”. É enganosamente aceita a idéia de que sem os códigos, engenheiros e arquitetos construiriam de forma medonha, com estruturas perigosas que poderiam entrar em colapso e matar várias pessoas inocentes (é melhor eles nem pensarem em construir pagodes de madeira). É interessante notar, entretanto, que nenhuma correlação equivalente entre os códigos de obras e um aumento ou decréscimo na segurança pública que resulte de seus decretos em lei seja fornecido. Ao nunca descortinar o verdadeiro valor de um código de obras, torna-se muito mais fácil para os interesses especiais aproveitarem os benefícios financeiros dos códigos que são favoráveis a eles.

Um outro método mais recente de vender os códigos utilizado pela nova pseudociência do “custo do carbono” (fornecidos por nossos amigos da ONU e seus afiliados tecnocratas, a International Standards Organization – ISO). Ao contrário de depender da ficção da segurança pública, a proposta dos novos custos em carbono embrulha com sofisticação o aquecimento global antropocêntrico com equações matemáticas. As equações cospem os fatores de custos que são utilizados para elencar diferentes métodos e materiais construtivos. Aqueles com os menores custos são declarados os vencedores pelos tecnocratas que escrevem os padrões. As equações são então apresentadas como uma prova científica de que os códigos são necessários para assegurar que a humanidade não encare o aquecimento global causado por engenheiros e arquitetos que mostrariam, de outra forma, nenhum respeito por nossa mãe Gaia.

Por exemplo, a indústria siderúrgica pode desenvolver equações que provem que o aço possui um custo em carbono menor que a indústria madeireira em algumas aplicações. A indústria madeireira pode fazer o mesmo contra a indústria siderúrgica. Os interesses especiais para os quais as equações são aceitas pelos burocratas gozam de uma regalia financeira após os seus materiais, tecnologias e processos construtivos se tornarem a preferência legal nos códigos. Não é possível imaginar quão corrupta e interesseira possa se tornar toda a padronização da construção civil com essas distorções adicionais; tampouco é possível imaginar os custos reais que serão incluídos por custos de carbono maquiados.

Dar vantagens financeiras para um grupo de interesse sobre os outros não é apenas um efeito negativo dos códigos e padrões da construção. Os códigos também funcionam para suprimir a criatividade de arquitetos e engenheiros ao impor a utilização de uma camisa de força apertada, trancada e de tamanho único aos seus projetos. Esse efeito negativo não apenas prejudica a grandeza e inovação dos projetos, como também prejudica a introdução de novos e mais seguros métodos, tecnologias e aplicações na construção, pois pensar fora da “realidade” do mundo dos códigos estatais é desencorajador.

Além de tudo, a tecnologia da construção, como todas as tecnologias, avança ainda mais rápido que a velocidade da mudança oferecida pelos tecnocratas e seus padrões construtivos. Os códigos estão sempre atrás no tempo e por isso retardam a introdução e o uso de novas tecnologias que são mais baratas, mais eficientes e mais seguras. Nesse caminho, os códigos funcionam exatamente ao contrário de suas próprias propostas afirmativas. Note que para o arquiteto e para o engenheiro, a punição que pode ser infligida ao desobedecer um código de obras é bastante séria. Por exemplo, um arquiteto ou engenheiro culpado por violar um, ou mais, dos milhares de códigos e regras, poderia ter a sua licença suspensa ou revogada, tornando a sua habilidade inoperante. Ele poderia ainda ser multado e arruinado financeiramente, ou ainda pior, preso se persistir em tentar satisfazer as necessidades de clientes dispostos a construir um Pagode de madeira.

Embora existam milhares e milhares de códigos de obras, eles nunca podem cobrir todos os cenários porque a tecnologia e a demanda dos consumidores são simplesmente muito complexas. Portanto, a utilidade de códigos de obras é sempre superestimada pelos tecnocratas e seus interesses especiais. Alguns códigos são raramente suficientes e alguns são simplesmente ironizados por especialistas. Você vai entender o que quero dizer se assistir a um episódio de “Holmes on Homes”. O apresentador Mike Holmes, rotineiramente e com muito orgulho, constrói estruturas que são “melhores que códigos”. (tais episódios devem ser muito embaraçosos para os burocratas que escrevem códigos).

Entre outras questões, um construtor fajuto que “respeite os códigos” pode utilizar uma padronização insuficiente como uma defesa por um acabamento pobre, pois o código torna mais simples a ele de se esconder atrás da lei. Processar um construtor que segue os códigos, mesmo que com péssimos serviços, é muito difícil.

Concluindo. Os aspectos negativos de códigos estatais são raramente mencionados ou discutidos. Já é hora de se reconhecer seus efeitos negativos, não vistos, bem como as motivações financeiras e políticas que trabalham em sua defesa.

Referências:

[1] “Palsangjeon”, https://en.wikipedia.org/wiki/Palsangjeon (Wikipedia.org)

[2] “Sakyamuni Pagoda – A mais alta estrutura de Madeira do mundo”,  http://www.chinaculture.org/gb/en_artqa/2003-09/24/content_38884.htm (Chinaculture.org)

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