A Síndrome de Oslo da Bolha Imobiliária

A Síndrome de Oslo da Bolha Imobiliária

Em 06 de Fevereiro de 2014, por Mark Thornton – originalmente publicado em Janeiro de 2013 no mises.org

A Síndrome de Estocolmo é um fenômeno psicológico no qual as vítimas de seqüestro desenvolvem uma simpatia irracional por seus raptores ao ponto de os defenderem nas investigações subseqüentes e nos julgamentos criminais. Enquanto essa síndrome se aplica a indivíduos ou pequenos grupos, a Síndrome de Oslo se aplica a toda uma população nacional.

Na obra The Oslo Syndrome: Delusions of a People under Siege (Smith and Kraus Global, 2005), Kenneth Levin descreve essa síndrome como “uma resposta psicológica comum entre populações cronicamente sitiadas, onde as minorias submetidas a difamação, discriminação e violência, ou entre pequenas nações sob ataque persistente de seus vizinhos. As pessoas que vivem sob essas condições estressantes freqüentemente escolhem aceitar as acusações de seus ofensores na esperança de, dessa forma, escaparem das ofensas.” [1]

Na verdade, a Síndrome de Oslo se aplica a todas as pessoas que vivem sob estados socialistas. O estado diz às pessoas o que fazer, força sua população a freqüentar escolas públicas para serem doutrinadas, diz às pessoas o que elas podem e o que não podem consumir, utiliza o poder de polícia e pune as pessoas que não fazem o que o estado diz que elas devem fazer, jogando-as na prisão se elas continuarem a viver do jeito que elas quiserem, o sistema estatal leva a maioria a aceitar as coisas como são como se aquele modo fosse o único estilo de vida possível.

Dado que a Síndrome de Oslo se aplica a toda uma nação e que a Noruega está passando pela fase final de seu ciclo de bolha imobiliária, achei importante especificar esse fenômeno psicológico associado com as bolhas imobiliárias, a “Síndrome de Oslo da Bolha Imobiliária”. Esse fenômeno psicológico é a resposta irracional de pessoas vivendo em uma economia inflada. Elas ignoram ou desmentem os sinais de uma bolha e, ainda, as encaram como sinal de boa sorte (por exemplo, maiores preços de suas propriedades) a “fatores fundamentais” que parecem embasar os altos preços nos mercados imobiliários ou nas bolsas de valores.

Não me entendam errado; o ciclo econômico não é um fenômeno psicológico. Entretanto, ele realmente possui um impacto de psicologia de massa. Se o banco central busca expandir a oferta monetária por meio de crédito fácil, então alguns banqueiros farão empréstimos adicionais e buscarão novos clientes. Os banqueiros serão premiados e os clientes ficarão felizes. Quando um boom se inicia, várias pessoas obtêm grandes lucros e a euforia se alastra. De repente o boom estoura. Muitas das pessoas que antes lucravam agora vêem seus ganhos irem por água abaixo e mesmo à ruína. Como resultado, elas se deprimem.

A razão pela qual as bolhas estouram se deve a expansões artificiais de crédito que levam empreendedores a embarcarem em muitos novos investimentos que expandem a estrutura de produção. Os novos projetos de investimento eventualmente elevam os limites de desenvolvimento. Esses novos empreendimentos não poderiam ser antecipados por todos os empreendedores. Primeiro, todos esses novos projetos elevam a pressão sobre a disponibilidade de recursos e resultados, por isso, os custos aumentam mais que eles anteciparam. Por exemplo, o preço do petróleo e do trabalho especializado aumenta assim que a bolha procede para seu pico. Segundo, assim que os preços de bens como alimentos, energia e outros produtos com demanda inelástica sobem, os consumidores possuem menos renda disponível para comprar seus novos produtos. Terceiro, assim que mais desses novos empreendimentos surgem e começam a oferecer seus produtos, os empreendedores encaram um aumento na competição e novamente superior ao que eles anteciparam. O resultado é que seus projetos de investimentos são agora encarados com custos maiores, menos consumidores e mais competição. Essa é a receita para o desastre que resulta na realização de um grupo de erros dos empreendedores.

Se a economia de sua nação não encara uma bolha há muito tempo, será um choque quando acontecer. Entretanto, os noruegueses certamente puderam ver o que aconteceu com os Estados Unidos e com os PIGS ou mesmo ali pertinho, com a Irlanda, o Reino Unido e com a Islândia. Apesar do que viram, ainda há aqueles que dizem que os preços da habitação na Noruega são genuínos. Os noruegueses estão, nesse sentido, condicionados psicologicamente e, de acordo com a Síndrome de Estocolmo ou a de Oslo, estão fazendo precisamente o oposto do que deveriam estar fazendo. Um fenômeno similar aconteceu nos Estados Unidos em 2005 quando as pessoas costumavam afirmar que “os preços dos imóveis nunca caem”, ou que você “nunca vai perder dinheiro se investir no mercado imobiliário”.

Parece haver bolhas imobiliárias por toda a Europa, com a exceção dos PIIIGS (Portugal, Islândia, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), mas a bolha norueguesa parece ser a maior delas. O gráfico abaixo mostra que os preços das habitações na Noruega aumentaram aproximadamente 300% nos últimos vinte anos.

 Fig01
Fonte: 2012 © Statistics Norway

Deveria estar claro pelo seguinte gráfico que o aumento nos preços imobiliários não é resultado do aumento dos custos de produção ou da inflação geral de preços, ambos os quais têm se mantido sob controle dado o aumento na construção e a expansão geral da economia norueguesa.

Fig02

Fonte: 2012 © Statistics Norway

O que explica o grande aumento nos preços é o aumento da demanda habitacional. Parte dessa demanda aquecida toma forma por pessoas que simplesmente colocam os imóveis no mercado devido aos persistentes aumentos de preços. O aumento nos preços imobiliários tem sido sustentado por um longo tempo e isso poderia parecer um suporte para a idéia de que os aumentos de preços são baseados em fatores fundamentais. Nos Estados Unidos, o preços dos imóveis subiram muito menos e por um período de tempo menor. De acordo com uma análise do Federal Reserve, os preços já caíram cerca de 40% desde seu pico em 2006. Desde aquele tempo, os preços dos imóveis na Noruega já subiram outros 30%.

Fig03

Fonte: Shiller (2005) and Eitrheim and Erlandsen (2004, 2005).

Os Estados Unidos possuem muitas falhas fundamentais em sua economia, incluindo um orçamento federal deficitário, um grande déficit comercial, uma crescente dívida pública e dívidas sem fundo relacionadas com a assistência à saúde e previdenciária. Em contraste, a Noruega não possui nenhum desses problemas e alguns outros fatores sugerem que a economia norueguesa é fundamentalmente sustentável. Ela possui superávit comercial e no orçamento (ambos em média de 14% do PIB) devido à renda do petróleo que também constrói um grande fundo soberano de riqueza. O fundo é de aproximadamente $700 bilhões de dólares (a população norueguesa é de aproximadamente 5 milhões de pessoas – $140.000 per capita / ano).

A taxa de desemprego gira em torno de 3%, o que seria considerado muito abaixo no nível natural de desemprego nos Estados Unidos (possivelmente em 6%). Portanto, a Noruega possui uma das melhores taxas de desemprego da Europa e mesmo no mundo todo. A inflação de preços norueguesa é de aproximadamente 1%, novamente uma das melhores do mundo. O PIB real cresce em torno de 3% e espera-se que continue nesse caminho no futuro. Esse crescimento seria consistente com um pleno emprego. É quase que muito bom para ser verdade.

Dessa forma, a imagem fundamental apóia a impressão de que os preços imobiliários são reais. Outro fator que apóia uma visão fundamental dos preços imobiliários é que Oslo, a capital com quase 1/5 da população, possui restrições de uso do solo que mantêm muita terra indisponível para construção. Esse é o mesmo caso fundamental que levou Las Vegas às severas conseqüências da bolha imobiliária: o governo impossibilitou que os terrenos fossem utilizados para construção. Os preços imobiliários em Oslo, entretanto, não aumentaram muito mais do que o aumento médio. Os maiores aumentos ocorreram em áreas associadas com a exploração de petróleo e sua administração.

Não podemos saber com certeza se a Noruega está experimentando uma bolha. Entretanto, a razão para a suspeita começa com a sua economia. A rósea economia norueguesa não é resultado de boa política, mas de sua renda derivada do petróleo que subsidia seu governo socialista. A Noruega aparece em 40º lugar no índice de liberdade econômica, atrás da Bélgica (38º) e Armênia (39º) e na frente de El Salvador (41º) e Peru (42º). Uma queda acentuada nos preços do petróleo poderia ser um severo revés para a economia nacional. Entretanto, como os recursos do petróleo continuam inundando o orçamento federal e o fundo soberano, ele mantém a aparência sólida da economia norueguesa.

Aquela imagem é particularmente persuasiva quando comparada com a economia de outras nações. Todas as maiores economias mundiais (i. e. EUA, EU, China e Japão) parecem cambalear na margem do desastre. As moedas parecem particularmente perigosas dado que o regime Bernanke “coordena” as expansões monetárias por todos os bancos centrais. O Euro parece estar com o maior dos riscos por causa de uma potencial ruptura desordenada. Essa ameaça resultou em uma demanda decrescente pelo Euro e um aumento na demanda por moedas mais seguras, como o Franco Suíço e a Coroa Norueguesa.

Ao invés de permitir que a Coroa aumentasse em valor com essa demanda, o banco central norueguês, o Norges Bank, aumentou a sua oferta. Eles intencionalmente baixaram os juros. Os depósitos overnight estão com 1,5% desde dezembro de 2012. Eles estão tentando manter a Coroa depreciada, mas seus esforços não têm sido completos. Essa manutenção da Coroa visa beneficiar os exportadores, incluindo a companhia estatal de petróleo. Entretanto, isso também ajuda a inflar a bolha imobiliária.

A inflação monetária norueguesa, medida pelo M2, tem sido mantida a 8% ultimamente. Durante a crise econômica, em 2007, ela ficou em 20%. De 2008 até o momento, a média é de 7,5% [2].

O resultado é que a Noruega tem experimentado pouca inflação de preços, exceto no setor imobiliário e ainda há pressão de valorização da Coroa. Com todos os bancos centrais se esforçando para baixar e manter as taxas de juros muito baixas, fica difícil para o Norges Bank aumentar as suas taxas. Maiores taxas de juros ajudariam a desinflar a bolha imobiliária, mas eles não tem tido sucesso nessa política [3]. Com os bancos centrais em marcha para a morte inflacionária, o Norges Bank parece ter se encontrado na mesma armadilha seguindo as políticas de ultradesvalorização das taxas de juros e inflação monetária.

Isso é incongruente, já que a Noruega decidiu manter sua independência monetária e ficar de fora da Zona do Euro. Também é desnecessário porque o Norges Bank possui uma opção política.

Se o banco central agisse e aumentasse suas taxas de juros e simplesmente permitisse que a Coroa flutuasse, ela se apreciaria e os poupadores noruegueses teriam como herança inesperada uma valorização de suas poupanças. Isso os encorajaria a trabalhar mais, poupar mais e tornarem-se mais ricos. Cada Coroa poderia comprar mais bens de todo o mundo no futuro. Isso com certeza penalizaria os exportadores, porém, mais importante, isso desinflaria a bolha imobiliária antes que as coisas comecem a ficar piores e mais distorcidas.

Como sempre, a política possui a capacidade de tornar as pessoas mais ricas ou mais pobres. No caso da Síndrome de Oslo da Bolha Imobiliária, entretanto, acredito que a política de empobrecimento vencerá novamente.

Notas:

[1] “Oslo syndrome symptoms, The Washington Times.

[2] “Decreased money supply growth” from “Statistics Norway.”

[3] “Norway Central Bank Delays Plans to Tighten Monetary Policy,” Bloomberg.com.

Para mais informações atualizadas sobre a bolha norueguesa:

http://norwegianbubble.blogspot.com.br/

http://www.businessinsider.com/norways-housing-market-is-a-bubble-2013-12

 

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5 Responses to A Síndrome de Oslo da Bolha Imobiliária

  1. Pedro says:

    Lá subiu 300% em 20 anos e tem bolha. Aqui subiu mais que isso e o mercado diz que não tem. O que você pensa a respeito?

  2. Hudson says:

    Olá. Os gráficos do artigo não estão sendo exibidos.

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