O Bom Selvagem

O Bom Selvagem

Em 08 de Outubro de 2013, por David Deming

Joseph Campbell afirmava que a civilização não é mantida pela ciência, mas pelo mito. “Aspiração”, explicava Campbell, “é o motivador, o construtor e o transformador da civilização”. Nossa sociedade tecnológica tem sido forjada sobre o mito de Francis Bacon da Nova Atlântida. Bacon foi a primeira pessoa a sem dúvida e explicitamente apoiar a aplicação prática do conhecimento científico para as necessidades humanas. “O verdadeiro e judicioso objetivo da ciência é que a vida humana seja enriquecida com novas descobertas e poderes”, explicava ele. Escrevendo ainda no início do século XVII, Francis Bacon previu o laser, a engenharia genética, aviões e submarinos.

Competindo com a visão de Bacon de uma sociedade baseada na ciência, está a fábula mais antiga e persistente do Bom Selvagem. O Bom Selvagem não é uma pessoa, mas uma idéia. É um primitivismo cultural, é a crença de pessoas que vivem em sociedades complexas  e evoluídas de que a vida mais simples e primitiva seria melhor. O mito do Bom Selvagem diz que o homem pode viver em harmonia com a natureza, que a tecnologia é destrutiva e que seríamos todos muito mais felizes em um estado mais primitivo.

Antes de Cristo, o Bom Selvagem era conhecido pelos Hebreus como Jardim do Éden. O poeta Hesíodo (700 a. C.) chamava de Era do Ouro. Na perdida Era do Ouro, as pessoas viviam em harmonia com a natureza. Não havia doenças, dor, trabalho ou conflitos. Todos viviam em perfeita paz. Os insetos não mordiam. Não havia extremos de temperatura e você poderia vagar nu pelos campos. Se acontecesse de você sentir fome, tudo o que precisaria fazer para satisfazer-se era procurar uma árvore e colher a fruta mais suculenta escolhida.

Em todos os períodos da história, pessoas antes inteligentes e cultas viraram-se para o primitivismo cultural. No século XVI, o escritor francês Michel de Montaigne descreveu os nativos americanos como moralmente puros pois nem tinham em seus idiomas palavras para descrever a mentira, trapaças, a avareza e a inveja. Montaigne retratou a vida primitiva de forma tão idílica que os índios americanos não tinham nem mesmo que trabalhar e podiam passar o dia todo dançando.

Quando o capitão James Cook e outros exploradores europeus encontraram os primeiros nativos da Polinésia no final do século XVIII, eles romantizaram aquele estado primitivo e de ignorância como de grande alegria, livre das necessidades e da ansiedade. Era melhor, escreveu um europeu, ser um ignorante iletrado. “Devemos admitir”, explicou ele, “que a criança é mais feliz que o adulto e que somos perdedores pela perfeição de nossa natureza, pelo aumento de nosso conhecimento e pela abrangência de nossa visão”.

A exposição primordial do mito do Bom Selvagem é encontrada no livro Discurso sobre a Desigualdade (1755), de Jean-Jaques Rousseau. Rousseau argumentava que o que parecia ser progresso humano era na verdade a sua decadência. A melhor condição para os seres humanos era viver o “estado puro da natureza”, no qual o selvagem existia. Quando o homem vivia como caçador e coletor, ele era “livre, saudável, honesto e feliz”. A decadência da humanidade ocorreu quando as pessoas começaram a viver em cidades, adquirir propriedade privada e praticar a agricultura e a metalurgia. A aquisição de propriedade privada resultou na desigualdade, fez florescer o vício da inveja, levou ao conflito perpétuo e a um incessante estado de guerra. De acordo com Rousseau, a própria civilização era a escória da humanidade. Rousseau foi tão longe que chegou a fazer a incrível afirmação de que a fonte de toda miséria humana era o que ele cunhou como a “faculdade do aperfeiçoamento”, ou o uso de nossa mente para a melhoria de nossas condições.

Rousseau enviou uma cópia de seu livro para Voltaire. Em uma carta confirmando o recebimento do livro, Voltaire elaborou uma crítica profunda e devastadora. “recebi seu novo livro contra a raça humana, monsieur. Agradeço por ele … ninguém jamais se empenhou com tanto intelecto em provar a nós mesmos que somos bestas. Um desejo nos curva a andarmos sobre quatro patas quando lemos seu trabalho. No entanto, como já faz mais que sessenta anos que perdi esse hábito sinto, infelizmente, que é impossível para mim resenhá-lo”.

O insight de Voltaire foi imediato e infalível: a oposição à tecnologia é a oposição à própria raça humana. O homem vive devido à tecnologia. A raça humana nunca existiu em um estado de harmonia com a natureza. Desde que Rousseau escreveu, mais de duzentos e cinqüenta anos de pesquisas em arqueologia e etnografia demonstraram que as concepções imaginárias associadas com o Bom Selvagem estavam completamente erradas. Antes do advento da civilização, as pessoas penavam com doenças, violência, fome e uma profunda pobreza.

Enquanto eu crescia nos anos 1960, a noção comum era de que os seres humanos eram os únicos animais dispostos à guerra. Porém, estudos das últimas décadas têm mostrado que isso é falso. No livro Demonic Males: Apes and the Origins of Human Violence , Richard Wrangham e Dale Peterson documentam observações de chimpanzés em seu habitat natural entrando em sistemáticos e planejados momentos de violência. Humanos e chimpanzés divergem de um ancestral comum desde quatro ou seis milhões de anos atrás. O fato de que chimpanzés guerreiam sugere que nossos ancestrais humanos também o faziam. As raízes da violência humana estão encravadas no tempo.

Chimpanzés machos formam bandos na tentativa de capturar algum macho desgarrado de outro grupo. Se ele estiver na proporção favorável de três para um, tentará matá-lo ou desfigurá-lo. Os ataques são viciosos e sem piedade, são marcados pela “crueldade gratuita”. Os procedimentos preferidos são dois chimpanzés segurarem a vitima no chão e o terceiro espancar e morder até matá-lo ou deixá-lo severamente machucado. Os agressores se divertem com a violência. Após a conclusão do ataque, eles exibem sua exuberância abanando os braços, gritando, gargalhando e batendo as mãos no chão.

 A eliminação de machos rivais significa uma vantagem reprodutiva sobre os membros dos grupos que sofreram o ataque. O comportamento dos chimpanzés é calculado e organizado, não é incidental, e revela um alto grau de inteligência. Chimpanzés têm sido reconhecidos como estupradores de suas próprias irmãs. Outros primos dos humanos também compartilham essa disposição para a violência. O estupro é lugar comum entre os orangotangos e cerca de um sétimo dos bebês gorila perece de infanticídio.

Antes do advento da civilização humana, o conflito entre bandos de caçadores e coletores era universal e intenso. Em seu livro Constant Battles, o arqueólogo de Harvard Steven A. LeBlanc documentou que “o estado de guerra nos anos passados era difundido e mortal”. O canibalismo e o infanticídio eram comuns. Estudos etnográficos sobre grupos de caçadores e coletores sobreviventes em áreas remotas do planeta durante o século XX têm encontrado que cerca de 25% dos machos adultos morrem em combate. LeBlanc conlui que  “a noção comum de um feliz passado humano, habitado por bons selvagens vivendo na natureza intocada e em um mundo pacífico é mantida apenas por aqueles que não têm o mínimo entendimento de nosso passado e que falham em ver o curso da história humana como ela realmente é”.

Antes da revolução industrial, a doença e a pobreza eram endêmicas, mesmo nas sociedades mais avançadas. Doenças infecciosas, incluindo o tifo, o sarampo e a malária eram universais. Vermes intestinais e disenteria eram comuns entre todas as classes de pessoas. No século XVII, na Europa, metade das crianças morria antes dos dez anos de idade. A expectativa de vida era de cerca de 25 anos; virtualmente sem mudanças desde os tempos do império romano. A imundície e a sujeira estavam em todos os lugares. Em 1741, Samuel Johnson proclamou no Parlamento uma reclamação sobre as ruas de Londres que estavam “obstruídas com montanhas de sujeira”.

Nenhuma civilização pré-industrial vivia em um estado de harmonia ecológica com seu meio ambiente. A exploração da natureza era freqüentemente destrutiva. As ilhas mediterrâneas colonizadas pelos antigos gregos foram transformadas em rochas limpas pela sobrepastagem e pelo desflorestamento. A baía de Tróia, descrita na Ilíada de Homero, foi preenchida com os sedimentos das montanhas desestabilizadas por práticas agrícolas insustentáveis.

Antes da chegada dos europeus, os índios americanos cuidavam da terra de forma agressiva, queimando-a. Eles provavelmente caçaram várias espécies de animais à exaustão, até sua extinção. O desaparecimento da Megafauna do Pleistoceno nas Américas coincidiu com a expansão dos assentamentos humanos há cerca de 10 mil anos. A longa lista de animais caçados até a extinção pelos índios americanos inclui o lobo pré-histórico, a preguiça gigante, tigres dentes de sabre, o castor gigante, mastodontes e mamutes.

Mesmo a descrição de sociedades primitivas como igualitárias está equivocada. No livro Sick Societies, o antropólogo Robert Edgerton documentou que todas as sociedades humanas faziam distinções baseadas no “sexo, idade e habilidade”. Os grupos também tendem a tratar as pessoas de forma diferente baseando suas distinções de “riqueza, poder e parentesco”. Não deveria ser surpreendente, por exemplo, descobrir que o chefe de uma tribo irá desenvolver seus próprios interesses “às custas de pessoas de menor status”.

Tudo isso seria de interesse acadêmico apenas, não fosse o caso de o moderno movimento ambientalista e muitas de nossas políticas públicas serem implicitamente baseados no mito do Bom Selvagem. A fonte original desse ambientalismo moderno é o livro de Rachel Carson chamado Primavera Silenciosa (Silent Spring). A primeira sentença no livro invoca o Bom Selvagem ao afirmar: “houve uma vez uma cidade no coração da América onde toda a vida parecia estar em harmonia com seu meio”. Porém, essa cidade descrita por Carson nunca existiu e o seu polêmico livro nos trouxe uma introdução do alarmismo ambientalista baseado em péssima ciência. Com o passar dos anos, Rachel Carson foi elevada a santidade e o molde serviu para infindáveis espasmos de histeria na venda do medo, desde a bomba populacional até o inverno nuclear, o Alar scare (pânico gerado por um produto usado em plantações de maças que aumentaria o risco de câncer) e o aquecimento global.

Os seres humanos nunca estiveram, não podem estar e nunca estarão em harmonia com a natureza. Nossa prosperidade e saúde dependem da tecnologia que é dirigida pelo uso de energia. Exercitamos nossa inteligência e modificamos a natureza e fomos aconselhados por Francis Bacon a realizarmos esse domínio com “a razão concreta e verdadeira religião”. Quando nos dizem que nossa principal fonte energética, o petróleo, está nos deixando doentes, ou que estamos ficando viciados em gasolina, são apenas mais alguns exemplos de pessoas até então racionais que se deixam influenciar por bobagens após desmaiarem sobre a sedução do mito do Bom Selvagem. Essa exultação desinformada do primitivismo pode apenas nos levar de volta para a Idade da Pedra.

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