Jane Jacobs: uma forasteira libertária

Jane Jacobs: uma forasteira libertária

Em 02 de Julho de 2013, por Jeff Riggenbach

Quando Jane Jacobs morreu em 25 de abril de 2006, houve um breve pico de interesse em algumas publicações libertárias – uma breve homenagem foi feita à ela no mises.org – mas esse pico logo se arrefeceu. E, desde então, fora um pequeno e perceptivo artigo sobre ela no lewrockwell.com e uma resenha extremamente inteligente na recente biografia de Jacobs no Journal of Libertarian Studies em 2007, não vi mais nenhuma referência na mídia em geral sobre uma das intelectuais mais importantes de língua inglesa do século XX que, sabendo ela disso ou não, também fora uma libertária.

Não que os autores daqueles pequenos artigos sobre Jacobs tenham tanto respeito por sua obra – eles realmente tinham. Pierre Desrochers, o geógrafo canadense que escreveu “Morte e Vida de um Relutante Ícone Urbano” para o Journal of Libertarian Studies, chamou Jacobs de “a escritora mais influente sobre as cidades na última metade do século” e Thomas Schmidt, que escreveu  “Ludwig von Mises, Meet Your Leibniz para o Lewrockwell.com no final de abril de 2010, chamou Jacobs de “uma pensadora e teórica urbanista original” cuja obra de 7 livros possui poucas ou nenhuma referência austríaca em sua bibliografia e mesmo assim suas conclusões freqüentemente parecem meramente um modo diferente de afirmar as mesmas descrições de Mises.

Schmidt nota, no começo de seu artigo, que:

Se uma teoria cientifica fornece uma descrição verdadeira da realidade, ela se manifestará de algumas formas. De um jeito, aproximações diferentes para a verdade irão todas converter na mesma realidade descrita, para outra, uma teoria congruente com a realidade irá revelar sua verdade em mais áreas que a área de observações empíricas que a originalidade permitiu. Assim, o desenvolvimento do cálculo de Newton coincidiu com o de Leibniz, ambos trabalhando com o mesmo método analítico matemático existente na época … se a economia austríaca também reflete uma realidade descritiva, ela deve da mesma forma se aproximar por diferentes métodos e ser verdadeira fora da pura economia, como Mises pretendia que a praxeologia fosse aplicável por toda a ciência social.

Na visão de Schmidt, Jane Jacobs se manteve para Mises como Leibniz estava para Newton. Ambos, independentemente, descobriram a mesma verdade por meio de diferentes pontos de vista e empregaram, de alguma forma, diferentes metodologias.

Pierre Desrochers vê Jacobs de um modo muito semelhante. A primeira vez que ele leu uma obra sua foi por volta de 1990 quando era estudante na Universidade de Montreal e ele declarou, 17 anos mais tarde no Journal of Libertarian Studies, que “sua escrita sobre os mercados como sistemas complexos adaptativos tinham tornado-no de um escritor de centro esquerda um devoto da ordem espontânea muito antes de sequer ter ouvido falar do libertarianismo e da economia austríaca.”

“Ordem espontânea”, é claro, é um conceito muito mais proximamente associado com Friedrich Hayek que com Ludwig von Mises e não há escassez de comentaristas que tenham comparado Jane Jacobs com Hayek. O professor de administração David Emanuel Andersson disse, por exemplo, que o primeiro e mais famoso livro de Jacobs, Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas, e o ensaio mais famoso de Hayek sobre o Uso do Conhecimento na Sociedade contam essencialmente a mesma história. Poderia-se até mesmo dizer que o paper de Hayek de 1945 é um sumário mais generalizado e abstrato dos argumentos centrais do livro de Jacobs de 1961.

Consideremos outro exemplo: Gene Callahan e Sanford Ikeda, em um valioso artigo sobre Jacobs publicado há oito anos, escreveram que “seu trabalho está cheio de argumentos e insights sobre a natureza econômica das comunidades, sobre o planejamento central e sobre ética que libertários achariam muito originais e esclarecedores”. Eles citaram sua observação do Morte e Vida que diz que as cidades são “problemas de complexidade organizada”, que requerem que aqueles que as estudam sejam capazes de “lidar simultaneamente com um número bastante grande de fatores que estão inter-relacionados em um todo o orgânico”. Eles também notam seu argumento contra o que chamam de “planejamento local de mão pesada”, principalmente porque esse tipo de planejamento falha em não levar em consideração os subconjuntos de conhecimento possuídos apenas pelos indivíduos em ação (para os quais ela cunhou a expressão conhecimento da localidade) e que isso inapropriadamente imita [as técnicas] da ciência física do século XIX.

Callahan e Ikeda parabenizam Jacobs no que eles chamam de “domínio inato do poder da troca voluntária e da ordem espontânea” e seu “individualismo metodológico e subjetivismo” na abordagem das questões em que trabalha. E eles comentam que “os paralelos” entre as idéias que ela formula em seu primeiro livro e os conceitos hayekianos de ordem espontânea, conhecimento local e cientificismo são admiráveis, especialmente porque ela não tinha familiaridade com o trabalho de Hayek naquele tempo.

Na época em que Morte e Vida foi publicado, Jacobs tinha 45 anos. Ela nasceu Jane Isabel Butzner em 4 de maio de 1916 em Scranton, Pennsylvania, filha de um próspero médico e sua esposa, enfermeira. A jovem Jane cresceu em Scranton, graduou-se lá e conseguiu emprego em um jornal local, o Scranton Tribune como escritora e editora para as páginas femininas. Um ano depois, aos 19, mudou-se para Nova York em busca da própria sorte.

Era 1935, abismo da Grande Depressão. Antes de se mudar, fizera um curso de datilografia e caligrafia, assim poderia se candidatar para um emprego de escritório caso não encontrasse no jornalismo e ela realmente trabalhou como estenógrafa durante seus primeiros anos em Nova York, mas não foi tão demorado até que ela começasse a vender artigos para jornais e revistas – primeiro para as revistas Cue e Vogue, então para matérias principais nos domingos do New York Herald Tribune durante a gestão de Isabel Paterson no jornal.

Em 1937, aos 21 anos, utilizando o dinheiro que seus pais reservaram para o propósito, ela se matriculou na universidade. Como conta sua biógrafa, Sparberg Alexiou, Jane Butzner se matriculou na School of General Studies da Universidade de Columbia como uma estudante visitante, o que significava que ela poderia estudar o que quisesse. Pela primeira vez em sua vida, Jane encontrou-se surpresa por gostar dos estudos formais e ela até mesmo tirou boas notas.

Em Scranton, na escola, ela se aborrecia com o currículo e levava livros sobre assuntos que a interessavam, prestando nenhuma atenção ao que era dito nas aulas, o que tinha como resultado notas medíocres. Agora ela estudava qualquer coisa que gostasse – geologia, zoologia, economia, geografia, direito constitucional – e ela era uma boa estudante. Porém, de acordo com Alexiou, após dois anos nos Estudos Gerais, Jane necessitou se matricular, o que significou que precisava ingressar na Barnard College. Contudo, Barnard rejeitou sua aplicação, apesar de seu ótimo currículo acumulado em Columbia. A faculdade feminina baseou suas decisões nas terríveis notas do ensino médio.

Jane decidiu não se importar. Como ele disse em uma entrevista anos mais tarde, “uma vez que fosse de propriedade da Barnard eu tinha que fazer, parece-me, o que Barnard quisesse que eu fizesse, não o que eu gostaria de aprender. Felizmente, minhas notas do colégio foram tão ruins que a Barnard decidiu que eu não poderia pertencer a ela e eu estava, portanto, permitia a continuar minha educação” pelos meios de leituras independentes. Ela também decidiu procurar trabalho. Talvez alguns anos de sucesso em freelances com seus artigos e alguns anos de estudos em Columbia a ajudassem a um emprego na edição?

E isso aconteceu. Ela recebeu uma oferta de trabalho na Iron Age, uma revista de negócios sobre a indústria do ferro e do aço. De lá ela se mudou para um bico como escritora de artigos para o Escritório de Informações da Guerra, que, durante seus três anos de existência, foi a maior editora de revistas do mundo. De lá, ao final da guerra, ela mudou-se para a Amerika, uma produção extremamente cara publicada pelo Departamento de Estado durante os primeiros anos da Guerra Fria, começando em 1944. Amerika era publicada para distribuição na União Soviética para informar seus cidadãos sobre a vida nos Estados Unidos. Foi escrita em inglês por escritores americanos como Jane Butzner, então traduzido para o russo, colocada nas máquinas e impressa. Quando ela cessou suas publicações em 1952, Jane, então com 36 anos, mudou-se para uma associação de editores e equipe de escritores no Architectural Forum, um produto da Henry Luce’s Time.

E foi por meio dessa publicação – Architectural Forum – o último emprego que ela teve no jornalismo que ela finalmente encontrou tanto a fama quanto sua sorte no final da década de 1940. Quando ela entrou na revista, de acordo com Alice Sparberg Alexiou, a ela foram passados os assuntos sobre escolas e hospitais, sobre o que ela nada conhecia. ‘Você será nossa especialista em escolas e hospitais’, disse-lhe o editor. Anos mais tarde ela disse: ‘então sempre ache suspeitas as revistas! Eu não sabia bulhufas sobre isso … e alguém com uma impressora diz que você é especialista’.”

Nesse tempo, entretanto, Jane Butzner casou-se com um arquiteto chamado Robert Jacobs em 1944. Ele ensinou à esposa como ler projetos e serviu como seu tutor e consultor nessa nova empreitada para aprender o suficiente sobre projetos de escolas e hospitais e poder, competentemente, cobrir o assunto para a Architectural Forum. Além disso, é claro, ele mudou o foco de sua esposa no jornalismo ao final da década. Ele transformou Jane Butzner em Jane Jacobs, o nome pelo qual se tornou famosa. Naquele tempo, ela ainda não era famosa e estava encarando um problema no trabalho.

Agora que ela tinha finalmente se profissionalizado no assunto, ela foi designada para um desafio novo e mais instigante: o planejamento urbano. Como sempre antes daquilo, ela se debruçou de corpo e alma no assunto de forma autodidata. Quais eram os objetivos do planejamento urbano? Ela se perguntava. Como eles querem alcançar seus objetivos? Qual o sucesso de suas tentativas no passado? Se falharam, qual foi a causa?

Para alcançar essas questões, ela começou a andar e passear de bicicleta por Manhattam. Ela observou. Perguntou-se como uma cidade funciona, o que a tornava ordeira, o que a tornava um lugar onde as pessoas podiam viver felizes, beneficiando-se das vizinhanças em que viviam.

As conclusões que chegou, como indicado, eram similarmente às de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek chegaram por rotas diferentes. Uma cidade é, basicamente, um mercado. Ela é uma ordem espontânea. Ela não pode ser planejada. As pessoas que tentam planejar cidades falham acima de tudo porque elas não compreendem os meios pelos quais a ordem espontânea funciona.

Jacobs escreveu sobre o que ela observou e sobre o que ela inferia de suas observações no Architectural Forum. Um livro foi encomendado a ela pela Random House e ela encaminhou o manuscrito no início de 1961. O livro foi publicado no final daquele mesmo ano – há mais de meio século – como Morte e Vida das Grandes Cidades Americanas e pode ser dito com muita segurança que ele levou o mundo a questionar-se. As idéias que ele contém, que varreram as faces de tudo o que se sabia entre os planejadores e os estudantes de planejamento à época, são hoje tidas como verdades concretas que devem ser levadas em conta por qualquer estudante sério de urbanismo e de planejamento. Morte e Vida é um daqueles livros que realmente mudam seu leitor – incapaz mesmo de pensar sobre o assunto de uma forma diferente daquela que ele leu em suas páginas.

Esse primeiro livro foi um grande desafio de ser copiado em grandeza mas Jacobs o fez, com outros dois livros de comparável originalidade e importância nas próximas duas décadas: The Economy of Cities em 1969 e Cities & the Wealth of Nations em 1984.

Ao tempo do primeiro deles, o A Economia das Cidades foi publicado em 1969, Jacobs e seu marido pegaram seus três filhos, incluindo dois em idade militar, e deixaram nova York para Toronto onde se tornaram cidadãos canadenses. Eles se opunham à Guerra do Vietnam, contaram a repórteres, e queriam ter certeza de que seus filhos não pudessem ir para a guerra forçados a lutar. Jane Jacobs levou 38 anos vivendo no Canadá, um pouco mais da metade de sua vida adulta. Lá ela faleceu, em Toronto, em 25 de abril de 2006 e hoje é descrita, com tamanha justiça, como uma “escritora e ativista canadense de naturalidade americana”.

Parece que ela teve acesso a alguma informação libertária oficial em 1970, quando Murray Rothbard revisou seu segundo livro, A Economia das Cidades, em seu  Libertarian Forum, chamando-o de “trabalho brilhante e cintilante que celebra o desenvolvimento econômico, do passado e do presente, das cidades de livre mercado”. Porém, foi em 1980, quando o Laissez Faire Books começou a publicar o Morte e Vida e fez uma resenha laudatória (escrita por mim) do livro de 1984 de Jacobs, Cities & the Wealth of Nations, no catálogo mensal, que Jacobs e suas idéias realmente começaram a penetrar a mente libertária de modo importante. Em 1985, quando Cities & the Wealth of Nations ganhou o prêmio Mencken da libertária Free Press Association como o melhor livro de apoio aos direitos individuais publicados no ano precedente, a associação pública das idéias de Jane Jacobs com o libertarianismo começaram a ganhar destaque.

Dois anos mais tarde, em 1987, o anarcocomunista Murray Bookchin, que em algumas ocasiões participou de mesmas causas que libertários, enobreceu Cities & the Wealth of Nations dizendo que ele “permanece como uma das melhores contribuições de Jane Jacobs para demonstrar de uma forma bastante articulada que nosso bem-estar econômico depende das cidades, não em estados nacionais” e que “seu argumento convida a um debate sobre a superfluidade do estado que há tempos é negligenciada”. Nessa época, embora o reconhecimento, Jacobs afastou-se alguns passos da tradição libertária. Um entrevistador disse-lhe em 1985: “cada vez mais … tenho visto pessoas a identificarem você com o libertarianismo. Você aceitaria essa caracterização?”

E ela respondeu:

Sou totalmente a favor da ajuda aos pobres e a dar às pessoas uma boa educação que possa ser usada – não o que elas possam pagar. Acredito que a saúde, não ligada ao dinheiro, é terrivelmente importante … os libertários dizem “olha, nem deveríamos ter leis sobre drogas. Isso é responsabilidade das pessoas sobre elas mesmas. Não deveríamos ter centenas de leis sobre coisas que não prejudicam as pessoas”. Não tenho tanta certeza sobre isso. Acho que as pessoas precisam de ajudas de vários tipos. Deve ser empírico, pragmático, você deve ver o que acontece. Deve tentar reconhecer erros, não apenas continuar fazendo-os porque você não sabe o que mais fazer. Não tenho uma noção sentimental de que todo ser humano seria maravilhoso se não fossem espoliados – isso não é verdade. Mas por não querer ajudar aos pobres ou dizer “deixe todos se erguerem com as próprias pernas”, não, eu não acredito nisso.

Então, por sua própria conta, Jane Jacobs não era uma libertária. Por sua própria conta, Ludwig von Mises não era um anarquista. Ainda assim, Murray Rothbard e outros ainda argumentam que a lógica do trabalho de Mises leva o leitor a concluir que não há lugar legítimo para um governo coercitivo – o estado – em uma sociedade baseada na propriedade privada e na livre troca.

Similarmente, a lógica básica do trabalho de Jane Jacobs deve levar o leitor atento inexoravelmente a uma visão libertária das relações sociais humanas. Jane Jacobs nunca percebeu que o libertarianismo era exatamente o que ela era, embora relutante contra essa visão que parecia a ela um pouco sem coração. Ela foi, talvez, a maior forasteira libertária

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