Duas Formas de Favelas

Duas Formas de Favelas

Em 04 de Junho de 2013, por Gary North

Na década de 1980, fui convidado para proferir algumas palestras durante um cruzeiro pelo Caribe. Ganhei um tíquete para o “The Love Bloat”. Comida, comida e mais comida!Eu até mesmo sonhava com comida. Parte da viagem envolvia uma breve passada por Caracas, Venezuela. O navio atracou a cerca de uma hora ao norte da cidade e os ônibus de turismo nos levaram até a capital.

Nas franjas de Caracas, ao longo de uma encosta, havia uma favela diferente de todas que eu já tinha visto antes, ou mesmo que viria a ver depois. Assim que passávamos, podíamos ver à distância aquela massa uniforme, mas alguns binóculos nos permitiam enxergar com mais detalhes. Aquilo era uma massa misturada e empilhada de placas de metal corrugado formando barracos.

Mais tarde, li notícias sobre essas cidades das encostas de montanha. Elas não possuem esgoto. Elas estão lotadas de pessoas que de alguma forma se locomovem para a cidade grande distante e abaixo. Doenças sérias freqüentemente se espalham por essas comunidades. Não consigo nem mesmo imaginar como é viver sob tais condições.

Alguém no ônibus me disse em privado: “que coisa incrivelmente feia!”. Pensei sobre aquela afirmação durante o restante da viagem até a cidade. E ainda penso sobre aquilo de vez em quando. Sim, aquela aglomeração de placas era realmente feia. Esteticamente, era uma afronta aos nossos sentidos.

Até mesmo a feiúra pode ser uma causa para a nossa alegria. É a marca da liberdade. Quando essas favelas feias surgem, sem qualquer planejamento e sem qualquer investimento público envolvido, sabemos que homens livres estão fazendo o seu melhor para encontrar o melhor lugar para morarem, uma melhor maneira para viverem. Muitos deles, podemos ter certeza, estão fazendo planos para dali saírem.

A liberdade possui o seu lado feio

O visitante bem alimentado dos Estados Unidos pensa consigo próprio: “que lugar terrível para se viver!”. Ele consegue ver quão ruim é. Ele até estremece com o que vê. Porém, e os lugares que ele não consegue ver? E os lugares anteriores que todo o morador de favela um dia deixou para trás, após limpar os pés com a poeira? O chão batido de alguma vila isolada onde não há nenhuma promessa de uma vida melhor e nenhuma memória de alguma. O calmo cemitério da vila que possui tantos túmulos para crianças menores de cinco anos de idade. Os amáveis riachos nos quais não havia peixes suficientes para alimentar uma população crescente. A praça da vila que não possui nenhum jornal noticiando os acontecimentos urbanos porque há apenas analfabetismo e falta de eletricidade para as impressoras.

As pessoas deixam esses lugares pitorescos com todas as suas belezas naturais típicas de cartão postal e se mudam para a cidade. Elas tem feito isso no ocidente desde o século XI. Essas enchentes de imigrantes aumentaram exponencialmente desde o século XVIII. Elas vêm sem nenhum dinheiro, sem nenhuma habilidade urbana ou mesmo educação. Elas poderiam ir para casa, mas poucos o fazem. Elas preferem viver em barracos de papelão e metal amassado nas encostas de morros. Por quê?

Para elas, a feiúra da favela é a beleza da liberdade. A favela está imersa em esperança. Ela é um lugar de refúgio temporário. Um mundo melhor está logo ali, abaixo do morro. Os habitantes dessas encostas conseguem ver um mundo melhor, literalmente. E ao vê-lo, elas podem começar a fazer planos para saírem do morro para sempre, caso assim desejem.

A favela irá permanecer no morro, contudo, muitos de seus moradores atuais eventualmente irão se mudar: para frente ou para trás. Eles podem ir para mais perto da cidade ou de volta para as suas vilas. A sua permanência na favela anuncia ao mundo: “melhor continuar na favela com nossos sonhos que voltar atrás derrotados”. Porque a liberdade na favela dá a esperança necessária às pessoas para que elas progridam e que não precisem voltar atrás.

A moradia da favela é tudo o que esses novos moradores podem pagar. O governo poderia, é claro, mandar o exército subir o morro e retirar todas aquelas pessoas de lá. As tropas poderiam destruir cada barraco. Nos Estados Unidos isso é chamado de renovação urbana (urban renewal). Em um lugar como a Venezuela, poderia ser chamado de “renovação ecológica”. O resultado seria o mesmo: sem-tetos. Para os residentes das favelas, essas desapropriações forçadas seriam chamadas de “remoção da esperança”.

Moradia sem Esperança

O governo poderia construir algumas poucas casas para algumas pessoas. Não para todo mundo. Temos visto o destino desses assentamentos populares na nação mais rica da historia, os Estados Unidos. Podemos muitos de nós nos imaginar vivendo nos projetos habitacionais do South Bronx?

Moradia sem esperança: essa é a favela final. Ela pode (por algum tempo limitado) estar pintada com tinta fresca. Ela pode (por um tempo limitado) estar limpa. Ela pode (por um tempo limitado) ser segura. Porém, se ela não oferece nenhuma forma de mudança, ou pior, se ela oferece uma conta do governo para permanecer ali, ela não oferece nenhuma esperança. Então a tinta descasca, a limpeza começa a desaparecer e o crime começa a se instalar.

Na cidade de Nova York, você pode ver dos postos de pedágio os projetos habitacionais vazios, deteriorados e mesmo queimados quando passa pelas estradas. Esses projetos habitacionais são menos feios que aquelas favelas dos morros de países tão pobres que não conseguem oferecer projetos de habitação popular? Ainda mais ao ponto, são elas tão úteis para oferecer abrigo para as pessoas pobres?

Na Venezuela, os moradores das favelas vivem em condições terríveis. Porém, ninguém as obriga a viverem lá. Nenhum governo subsidia aquelas moradias e condições. Elas não pretender viver lá por toda a vida. Elas fazem planos para se mudarem; elas testam planos de mudança e, eventualmente, muitas delas conseguem se mudar.

Há dois tipos de favelas. Não gostaria de viver em nenhuma delas. Porém, de uma coisa eu sei: uma delas é pior que a outra. A que eu evitaria de qualquer forma seria aquela com sinais invisíveis sobre a sua entrada: “toda esperança abandonada para aquele que aqui entrar”.

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