A Psicologia Evolutiva e o Viés Antimercado

A Psicologia Evolutiva e o Viés Antimercado

Em 05 de Março de 2013, por Toban Wiebe. Publicado originalmente no Mises Daily, 5/9/2010

 O analfabetismo econômico existe em todos os lugares, mas por que isso deveria ser algum problema? A ignorância é até mesmo mais perversa na microeletrônica e na programação de computadores e mesmo assim a tecnologia eletrônica é cada vez mais excepcional.

Em muitos campos de estudo, as pessoas deixam a ciência aos especialistas e confiam na correção de suas conclusões. Nem tanto para a economia: ao contrario de deixarem a matéria aos economistas, as pessoas mantêm fortes posições que são muitas vezes obviamente falsas. A ignorância econômica, por si mesma, não é um problema. Como Murray Rothbard coloca,

…não é crime algum ser ignorante em economia, que é, antes de tudo, uma disciplina especializada e algo que muitas pessoas consideram como sendo uma “ciência triste”. Contudo, é totalmente irresponsável dirigir uma opinião raivosa e aguda sobre questões econômicas enquanto estiver nesse estado de ignorância.

 Se as pessoas confiassem na economia como ciência, sua ignorância econômica seria menos maléfica que a ignorância que temos com respeito à maioria dos outros assuntos.

 Natureza Humana:

 Paul Rubin chamou essa econômica universal e ruim de “economia vulgar” (folk economics – como a física vulgar ou a psicologia vulgar, impregnadas de visões errôneas cientificamente) [1]. Aqueles que estudam economia estão bem cientes da economia vulgar: o status quo antimercado contra o qual argumentamos sem fim. Todos mantemos esse apelo emocional antes de aprendermos economia.

Os não-economistas são sistematicamente enviesados contra os mercados, então isso não é apenas um problema de desconhecimento, caso fosse, esperaríamos variações ou mesmo um viés unilateral [2]. A economia vulgar é de longe a maior barreira que se ergue no caminho dos livres mercados – por isso a importância do entendimento de sua causa e sua cura. Rubin explora a psicologia evolutiva para explicar a persistência teimosa dessa visão enviesada.

A psicologia evolutiva explica boa parte da natureza humana ao estudar o impacto que nossa história evolutiva teve sobre a nossa mente. Ela fornece fortes evidências contra a posição da educação extrema (“tábula-rasa”), a qual afirma que a mente entra no mundo vazia e que é completamente um produto do seu ambiente e condicionamento, i. e., que não há nenhuma natureza humana. Ao invés disso, a psicologia evolutiva demonstra que há uma natureza humana, enraizada em nossas preferências evolutivas, que explica a existência de universos culturais (cultural universals) – atitudes que estão presentes em todas as culturas. A psicologia evolutiva explica as preferências evoluídas mais óbvias, como o porquê de sermos atraídos pelo sexo oposto ou o porquê de gostarmos de comer açúcar e gordura. Ela também explica a existência de elementos menos óbvios da natureza humana, como nossas intuições morais e a noção vulgar em economia.

O cérebro não é um órgão de pensamento homogêneo: diferentes áreas se especializam em diferentes tarefas. Por exemplo, o cérebro possui regiões que são especializadas na visão, na audição, na linguagem, no reconhecimento facial etc. Essas habilidades surgem naturalmente, sem a necessidade de qualquer aprendizado. Entretanto, o cérebro também não possui especialização em áreas que são muito úteis atualmente, como a matemática, a leitura e a escrita. Já que essas coisas não surgem conosco intuitivamente e automaticamente, devemos deliberadamente nos esforçar para aprendê-las – freqüentemente devagar e com muita dificuldade. Além do mais, temos teorias intuitivas para tratar com o mundo, incluindo (porém sem se limitar a elas), as intuições físicas, uma intuição de moralidade, uma intuição psicológica e uma intuição da economia [3]. Gostemos ou não, a bagagem evolutiva é parte da natureza humana e veio para ficar.

 O Cerne da Economia Vulgar

O Ambiente de Adaptação Evolutiva (AAE) – as sociedades de caçadores coletores da África Paleolítica – fornece a base de explicação para a natureza humana e as raízes da economia vulgar. Os caçadores-coletores nômades viviam em pequenos grupos com muito pouco com relação a propriedades e trocas de mercado. A produção era limitada à colheita do que a natureza permitia. Nossos cérebros estão adaptados a funcionar em um mundo muito diferente do nosso. A economia vulgar é o artefato de nossa história evolutiva.

Duas das maiores características do AAE são de interesse aqui. Primeiro, existia um mundo de soma zero. Nossos ancestrais caçadores-coletores viviam com o que era oferecido pela natureza. Não havia efetivamente nenhum progresso econômico – certamente não durante o tempo de vida de uma pessoa. O consumo de uma pessoa acontecia às expensas do consumo de todos os outros no clan ou na tribo. Com mínima especialização, produção ou propriedade, o escopo do comércio era mínimo. Sociedades eram basicamente pequenas e comunalmente igualitárias. Segundo, o AAE era caracterizado pelas trocas recíprocas, não trocas comerciais. A troca recíproca é o recebimento e o retorno de favores, por exemplo: evitar meu assassinato com o outro entendendo que isso será recíproco no futuro. O pensamento da soma zero e a lógica das trocas recíprocas formam o centro de nossa economia intuitiva.

Em um mundo de soma zero, uma distribuição igualitária dos recursos teria sido vantajosa. Uma pessoa rica estaria privando os outros de recursos cruciais ao pegar porções maiores de um mesmo e limitado estoque de mantimentos. Como resultado, intuitivamente sentimos que a riqueza de uma pessoa surge como fardo de outra. Já que os incentivos dificilmente têm sentido em um mundo de soma zero, há muito pouco a se perder com a redistribuição da riqueza. Isso explica o igualitarismo socioeconômico.

Portanto, já que as sociedades de caçadores-coletores eram polígamas, um homem rico com múltiplas esposas estaria literalmente privando os outros homens de sua sobrevivência genética [4]. Haveria um grande benefício para machos não-dominantes em impedirem outros dominantes. Isso explica o viés anti-riqueza, nossa tendência em associar a riqueza com o mal.

Atualmente, esses sentimentos não são apenas sem sentido, mas extremamente maléficos. Em um mercado livre, quanto mais um bem é demandado, mais dele é produzido e o mais acessível ele se torna – graças à economia de escala. Deste modo, o consumo de alguns faz exatamente o oposto do que privar os outros. Os incentivos dirigem a produção, porém a redistribuição não voluntária (coercitiva, estatal) prejudica os incentivos, encolhendo o estoque de bens econômicos. O consumo dos ricos em um mercado livre é possível apenas se cada troca comercial beneficiar a outra parte envolvida, portanto, não há conflito de interesses. Finalmente, vivemos em uma sociedade monogâmica, portanto, também não há nenhum conflito de interesses genéticos.

A lógica das trocas recíprocas lança luz a algumas falácias econômicas. Ela leva diretamente à falácia da teoria do valor objetivo. Quando lhe faço um favor, você passa a “me dever um” também, sem importar se as condições da oferta e da demanda mudaram ou não no futuro. O valor desse favor é objetivo e constante e eu espero um favor equivalente em retorno. Isso explica a popularidade de tais noções confusas como as sobre os preços e sobre os controles de preços, especialmente as leis contra a usura.

O sentimento anti-homem de negócios tão difundido é também um resultado da falácia sobre a objetividade do valor. O homem de negócios não adiciona nada físico aos bens econômicos, por isso as suas negociações parecem ser exploradoras. Da mesma forma que o viés anti-lucros: se eu lucro em uma troca recíproca, então as nossas trocas não foram com bens iguais e eu passei a perna em você. Outro fator contribuinte para o viés anti-riqueza é que uma pessoa rica no Ambiente de Adaptação Evolutiva era muito provavelmente um larápio ou não solidário para com os outros.

O respeito pelas trocas recíprocas era necessário para ajudar aqueles na necessidade, de modo que eles o ajudassem caso você estivesse com necessidades em um outro momento. Em uma troca no mercado, o preço é cobrado tanto quando o comprador não está com necessidades quanto quando ele está. Como resultado, nossa intuição econômica favorece as trocas recíprocas – as trocas comerciais são de coração frio e não caritativas com relação às pessoas que passam necessidade! É por isso que tantas pessoas não são pré-dispostas para aceitar a liberdade de iniciativa envolvendo os pobres e necessitados: parece errado cobrar de pessoas por suas necessidades. Em tais situações, as trocas comerciais acontecem contra nossos sentimentos altruístas, que formam a base para as trocas recíprocas.

 Mais sobre a Economia Vulgar

A heurística mental que trabalhou muito bem no Ambiente de Adaptação Evolutiva pode ser um grande obstáculo para esclarecer o pensamento sobre o mundo moderno. Tal atalho mental de uma decepção particular para com a economia é a nossa tendência em julgar atos pelas suas intenções ao contrário de julgá-los pelos resultados. No AAE, as motivações teriam sido alinhadas de forma muito próxima com os resultados: as motivações egoístas teriam trazido resultados egoístas e as motivações altruísticas teriam se revelado resultados altruístas. Isso ocorre porque as trocas recíprocas são trocas de favores altruístas: os atos egoístas nunca contariam como favores. Essa heurística é completamente quebrada no processo de mercado, onde indivíduos egoístas produzindo e trocando beneficiam não apenas a si mesmos, mas muitos outros na sociedade.

Outra heurística obsoleta é o nosso viés com relação a indivíduos identificáveis. Damos consideravelmente maior valor a pessoas com nomes e rostos que a pessoas nas estatísticas. No Ambiente de Adaptação Evolutiva, todos de um clan teriam conhecido uns aos outros pelo próprio nome e pela face, portanto esse viés agiu em favor do grupo [5]. Em uma sociedade de mercado, isso resulta no foco em coisas que possam ser vistas e no desconhecimento das coisas não visíveis. Isso é uma fonte veraz de erros econômicos. Praticamente todas as ocasiões de favorecimento aos interesses dos produtores sobre os interesses dos consumidores surgem desse viés. Alguns exemplos: a ênfase na criação de empregos ao contrário da produtividade, o protecionismo, o localismo, resgates financeiros, o favorecimento dos gastos ao invés da poupança e por ai vai. Em todos esses casos, os benefícios crescem para indivíduos identificáveis enquanto a conta recai sobre os ombros de inúmeros indivíduos anônimos.

Nosso viés anti-estrangeiros, que é tão grande atualmente, teria sido útil no AAE. O estado de guerra entre as tribos e clans é muito comum entre caçadores e coletores. Seria extremamente perigoso buscar estabelecer a cooperação com outras tribos e clans, já que os guerreiros poderiam massacrar todos os homens da outra tribo e seqüestrar todas as suas mulheres, enquanto reuniam e acumulavam os recursos que aquela tribo estaria deixando para trás. Como resultado, desenvolvemos uma certa forma de desconfiança contra estrangeiros que pode facilmente aumentar e chegar à hostilidade. Pagamos caro por essas preferências: as restrições no comércio internacional nos deixam em pior estado, as restrições na imigração reduzem as possibilidades de economia da força de trabalho –  e, principalmente, impedem imigrantes potenciais de uma melhora nos seus padrões de vida – e, no topo de tudo isso, a devastação da guerra.

Um viés relacionado é o desprezo pelas grandes corporações. Preferimos tratar com o proprietário do comércio local do que com a corporação sem face. No AAE teria sido muito mais seguro tratar com uma pessoa conhecida do que com um grande grupo de estrangeiros de outra tribo. No mundo de hoje, da produção em grande escala, avalizar essa preferência está se tornando cada vez mais dispendioso. Rotineiramente presenciamos o espetáculo de pessoas que em bom tom de voz recriminam o Walmart pela ruína do comércio local, mesmo que as pessoas daquela comunidade prefiram comprar lá e o fazem porque é simplesmente muito mais fácil e melhor.

A aversão para com os prejuízos, nossa tendência em dar mais importância aos prejuízos que aos ganhos, é outro pensamento enviesado que prejudica a liberdade de iniciativa [6]. A aversão do prejuízo serviu muito bem à humanidade no seu ambiente de adaptação evolutiva, onde qualquer prejuízo poderia significar facilmente a morte – ter duas proles é duas vezes melhor que ter uma, mas ter uma é indefinidamente melhor que não ter nenhuma. No mundo moderno, a aversão contra o prejuízo representa problemas. Os trabalhadores resistem contra perdas salariais nominais (valores nominais são os valores expressos por si sós) – mesmo que os salários reais tenham aumentado (salários reais são a relação entre os salários nominais e seu poder de compra), o que dificulta a acomodação macia dos salários às novas condições do sistema de preços. As pessoas preferem a inflação de preços à deflação de preços porque isso dá a impressão de aumento de renda (aumento do salário nominal, mesmo sem o aumento de salário real). Um resultado particularmente ruim é o efeito político ratchet (ratchet effect): revogar políticas ruins é extremamente difícil, pois aqueles que podem perder com isso são altamente motivados para evitar a revogação; mas introduzir novas políticas ruins é relativamente mais simples, pois as perdas são geralmente socializadas entre os diversos consumidores.

Sem dúvida, há diversos outros exemplos da economia popular [7]. Além de tudo, somos uma espécie altamente social e a organização social tem sido um importante fator em nossa evolução – muito do cérebro é dedicado a tratar com o ambiente social. Com essa visão resumida, fica claro que o viés sistematicamente antimercado é um artefato de nosso passado evolutivo.

 A Universalidade da Economia Vulgar

A principal linha de evidência dessa explanação evolucionista é que a economia vulgar persiste contra o tempo e o espaço – ela é um universo cultural. A economia vulgar sempre esteve a nossa volta. Uma olhada para trás em nossa história revela que as pessoas de todos os tempos e lugares mantiveram essas mesmas concepções enviesadas. A Utopia de Thomas More é um ótimo exemplo vindo do século XVI, cuja leitura é muito semelhante às fantasias socialistas atuais. Além disso, a economia vulgar mantém-se tão forte quanto nunca, a despeito do progresso da ciência econômica. Os mesmos erros que já foram sistematicamente refutados séculos atrás ainda gozam de privilégio amplamente difundido no público atual. O lamento sobre a falta de sentido econômico do público feito por Simon Newcomb em 1893 soa verdadeiro ainda hoje [8].  A ciência econômica raramente faz progresso na opinião pública.

Esses dois fatores – sua universalidade e sua resistência à razão – sugerem fortemente que a economia vulgar é culturalmente universal, atribuível à evolução genética de nossa espécie. Se assim não fosse, esperaríamos que as idéias libertárias tivessem alguma chance de sucesso em culturas que as adotam na prática cotidiana nos mercados e que elas seriam difundidas pela via do crescimento e da imitação. Não é necessário dizer que esse não é um modo como as coisas progrediram até agora. A psicologia evolucionista fornece explicações para esse viés antimercado universal.

 A Importância da Educação em Economia:

Com a causa identificada, a remediação para a economia vulgar se torna clara: educação persistente. Embora estejamos presos a essas preferências evolutivas e a seu viés, não somos escravos a eles: podemos controlá-los – aqueles de nós que preferem a liberdade de ação somos prova disso. A única solução realista é as pessoas fazerem um esforço consciente para aprenderem a lógica dos mercados – da cooperação humana. A educação em economia é uma ferramenta poderosa, o desafio é apenas conseguir persuadir as pessoas a se esforçarem para aprender.

Uma sociedade livre não pode existir onde a economia vulgar corre galopante. A alfabetização em economia deve ser considerada essencial para todos os membros da sociedade da mesma forma que a matemática é considerada essencial. Os erros da economia vulgar devem ser diretamente confrontados com a educação nos princípios básicos da economia. A tarefa da educação nunca é definitiva:  “assim como todos nascem ignorantes em matemática, da mesma forma, todos nascem como economistas vulgares.” Cada nova geração necessita estudar economia de modo a sustentar a fundamentação ideológica de uma sociedade livre. A importância disso jamais será enfatizada suficientemente. Como Mises adverte no último parágrafo de seu tratado econômico, Ação Humana:

“O conhecimento acumulado pela ciência econômica é um elemento essencial da civilização humana; é a base sobre a qual se assentam o industrialismo moderno, bem como todas as conquistas morais, intelectuais, tecnológicas e terapêuticas dos últimos séculos. Cabe aos homens decidirem se preferem usar adequadamente esse rico acervo de conhecimento que lhes foi legado ou se preferem deixá-lo de lado. Mas, se não conseguirem usá-lo da melhor maneira possível ou se menosprezarem os seus ensinamentos e as suas advertências, não estarão invalidando a ciência econômica; estarão aniquilando a sociedade e a raça humana.” [9]

Isso centraliza a tremenda importância do ensino da economia como ciência para o público e esse trabalho está sendo executado por muitos indivíduos e organizações. Não é necessário dizer que ainda há muito a ser feito.

Notas:

 [1] Paul Rubin, “Folk Economics,” Southern Economic Journal, Vol. 7 (2003): pp. 157–71.

[2] Brian Caplan, “Systematically Biased Beliefs About Economics: Robust Evidence of Judgmental Anomalies from the Survey of Americans and Economists on the Economy,” Economic Journal, Vol. 112, No. 479 (2002): pp. 433–58; and The Myth of the Rational Voter (Princeton: Princeton University Press, 2007).

[3] Steven Pinker, The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature (New York: Viking, 2002), pp. 220–21.

[4] Paul Rubin, Darwinian Politics: The Evolutionary Origin of Freedom (London: Rutgers University Press, 2002), pp. 103–4.

[5] Rubin, Darwinian Politics, pp. 162–64.

[6] Rubin, Darwinian Politics, pp. 173–74.

[7] See Rubin, Darwinian Politics.

[8] Simon Newcomb, “The Problem of Economic Education,” Quarterly Journal of Economics, Vol. 7, No. 4 (1893): pp. 375–99.

[9] Mises, Ludwig von; Ação Humana, um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010, p. 999.

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